O homem não quis carregar o arco-íris

Cada vez mais ligo literatura ao prazer de comer, nestas caminhadas pelo Brasil, conhecendo o País por dentro, levado por festas, festivais, feiras e bienais de livros. Conhecendo gente, escritores e costumes, falas e paisagens que se entranham em mim e me levam à conclusão, cada vez mais segura, de que o caminho que escolhi - ou para o qual fui levado - é o melhor. De Pirenópolis ainda trago da Rua Nova o cheiro quente do biscoito de queijo de dona Sebastiana, ao sair do forno e desmanchando na boca. Ou a pamonha frita que me abriu o apetite no restaurante Pedreiras, à beira do Rio das Almas, seguida pela caipirosca de Murici.Há ainda o bolo de pamonha assada, a coalhada fresca, os pãezinhos quentes e doces, o bolo de fubá, do café da manhã na Pousada Casa Grande. No Empório do Cerrado, na Rua do Rosário, peça o filé ou o peixe acompanhado pela farofa de Baru, semente da região, com a qual se faz também paçoca, pesto e licores. Não se vem a esta cidade sem experimentar o empadão goiano que tem palmito, frango, linguiça, tomate, e tudo mais que a criatividade exija e exista na despensa da cozinheira. Esquecendo a gula, uma recomendação imperdível: vá à loja de Claudia Azeredo para descobrir tapeçarias, painéis, toalhas de banho e mesa (e agora algumas roupas) com desenhos geométricos insólitos, fascinantes.No interior de Goiás, a 145 quilômetros de Brasília, subitamente, pelas mãos de Iris Borges e com o apoio do prefeito Nivaldo Antonio Melo, nasceu a Flipiri, pequena festa literária, já com ares de grande. Falemos da cidade, um tesouro aos pés da Serra dos Pirineus. Fundada em 1727, foi centro de garimpeiros que buscavam o ouro existente no Rio das Almas. Uma enchente destruiu metade da ponte sobre o rio, daí o nome de Meya Ponte que a cidade carregou por muito tempo, até que os habitantes acharam que era esquisito e mudaram para Pirenópolis, por causa da serra que teria sido assim batizada por um frei que, chegando à região, considerou aquele o ponto mais alto do Brasil, tão alto quanto os Pirineus. Com 23 mil habitantes, Pirenópolis é pequena e aconchegante, é como se ela nos abraçasse.Sua parte histórica, completamente restaurada, concorre em beleza com Ouro Preto e Paraty, acho mesmo que ganha. As ruas são calçadas com pedras "pé-de-moleque", de que a região é rica. Cores por toda parte. Festas famosas como a do Divino e a Cavalhada. Claro que trouxe várias imagens do Divino Espírito Santo, do qual minha mãe era devota e que coloquei no meu estúdio esperando inspiração. Cem são as pousadas, inúmeros os restaurantes e bares. A Rua do Lazer, à noite, está repleta de jovens nas mesas ao ar livre. Na Rua Aurora, certo dia do ano, a banda seguida pela multidão sobe até a igreja no alto e de lá se vê o Sol nascendo de um lado e a Lua do outro. É, digamos, uma cidade encantada, boa de chegar, difícil de sair. Entende-se por que Eliane Lage, superstar do cinema nos anos 50, a tenha escolhido como refúgio, vivendo com o pé na terra em absoluta paz, e por que Reynaldo Jardim, poeta e reformador de jornais, ícone da imprensa, esteja sempre ali, numa mesa do bar Pirineus.As falas principais da Flipiri foram na Casa da Câmara e Cadeia que o Iphan restaurou, assim como restaurou em toda a sua magnificência a igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário, destruída por um incêndio em 2002. Essa igreja está citada no livro de Saint-Hilaire em sua viagem ao Brasil. Para mim, as falas fundamentais foram realizadas no entorno da cidade, nos chamados povoados e nas escolas, junto às crianças. Nada menos do que 23 escritores do grupo Casa de Autores, criação de Iris Borges, e muito bem organizado com portfólios e tudo, contaram histórias, cantaram, fizeram leituras e conversações com a meninada.O essencial desses festivais é isso: procurar estimular o hábito da leitura, a formação do leitor que, uma vez capturado, jamais deixará de ler. A turma da Casa do Autor é toda jovem, animada, canta, dança, toca violão, todos bem-humorados e felizes. A Flipiri precisa entrar logo no calendário cultural não só da cidade, como de Goiás e do Brasil. Tem gabarito. Eram esses autores que animavam a noite na Pousada em saraus improvisados e divertidos que iam até as 4 da manhã. No dia seguinte, levantavam cedo e iam para o trabalho. A Festa foi encerrada com a exibição do documentário sobre José Lins do Rego, de Vladimir Carvalho, num cinema lotadíssimo. O filme é uma recuperação comovente e objetiva desse que foi um autor dos mais importantes, um dos fundadores do regionalismo, ao lado de Graciliano e Jorge Amado. Vladimir é cineasta de extrema sensibilidade e apuro, exato no timing e na dramaticidade. Zé Lins, um autor que teve embates com a crítica e ainda é injustiçado, precisa ser revisto. Vladimir, na vida real, tem uma vantagem. Sua companheira Lucilia Garcez é doce, acolhedora, bem-humorada, hospitaleira. E uma grande escritora infantil.Agora, se me perguntarem um dos sucessos da Flipiri vou dizer. Foi Luisa, filha de Alessandra Roscoe. Ela acompanhou os escritores por toda a parte, todas as escolas, almoços, sessões, sorridente e calma, sempre no colo de alguém, afinal, tem apenas dois meses. Começou bem a vida. Houve um episódio engraçado. Alessandra, para contar suas histórias, leva uma série de acessórios. Um deles é um arco-íris de madeira supercolorido. Certo dia, sobrecarregada, afobada, apanhou as tralhas antes de entrar em uma escola e pediu a um senhor que, por favor, levasse para ela o arco-íris até a sala de aula. Solene, o homem respondeu: "Sou um funcionário, mas carregar arco-íris não é minha função, não é de minha alçada." Tudo bem, um menino levou o arco-íris e jamais esquecerá aquele dia. Afinal, quem de nós na vida já carregou um arco-íris?

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