O hiperpartidarismo que polariza a América

O jornalista Ronald Brownstein lança o livro A Segunda Guerra Civil, atualíssimo nesta temporada eleitoral que ferve nos EUA

Caio Blinder, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

Polarização política não é novidade em um país chamado EUA (sendo radicalmente didático, o significado da abreviação está no fim do parágrafo). Não é à toa que o atualíssimo livro do jornalista Ronald Brownstein leva o nome de A Segunda Guerra Civil (The Penguin Press, 484 págs., US$ 27,95). É atualíssimo em uma temporada eleitoral que está fervendo e tem o candidato-sensação Barack Obama apregoando que "''''não quer jogar a América vermelha (republicana) contra a América azul (democrata) e sim ser o presidente dos Estados Unidos da América". Então, qual é a novidade? Brownstein, ex-colunista do Los Angeles Times e hoje diretor político do grupo de publicações Atlantic Media, obviamente reconhece que "o país já esteve mais polarizado do que hoje. O que é inusitado agora é que o sistema político esteja mais polarizado do que o país". Ele remonta o problema aos anos 60 quando distritos no sul que costumavam eleger democratas conservadores passaram a escolher republicanos. Enquanto isto, ao norte, republicanos moderados cederam lugar a democratas. Brownstein lamenta as conseqüências (paralisia em Washington, para o começo de conversa) do hiperpartidarismo, um termo que ele apropria de um virulento praticante, o ex-presidente do Partido Republicano, Ken Mehlman. No seu lamento, Brownstein lembra que os Estados Unidos da América são o país mais poderoso do mundo, mas seus líderes não conseguem concordar em um plano para reduzir a dependência de petróleo estrangeiro, equilibrar o orçamento, oferecer seguro de saúde a 1/6 da população, alinhar as promessas aos aposentados com a habilidade para pagar o custo e discordam sobre estratégias para combater o terrorismo islâmico. E, por que não? Na medida em que soluções exigem "grandes barganhas" bipartidárias que políticos polarizados não estão dispostos a fazer. O sistema encoraja confronto e não compromisso, recompensa ideologia sobre pragmatismo, afiando as divergências em vez de construir o consenso. Brownstein claro que integra o consenso de gente moderada e sensata que considera que polarização seja nociva. Partidarismo tem seus méritos, pois oferece escolhas e estimula o engajamento cívico no jogo político. Mas não pode ir longe demais, no raciocínio de gente como Brownstein. Na sua moderação, Brownstein não quer polarizar, mas ele primariamente coloca a responsabilidade pelo estado da desunião americana nos setores mais conservadores do Partido Republicano, que abriram espaço para a ascensão e ocupação do poder político de figuras como os ex-presidente do Congresso, Newt Gingrich, o ex-líder da maioria, Tom DeLay (hoje os republicanos são minoria), o presidente George W. Bush (e seu fracassado bruxo eleitoral Karl Rove) e seus aliados no talk-radio. No seu discurso de despedida no Congresso, em junho de 2006, metido até o pescoço em escândalos de corrupção, DeLay filosofou que os "''''verdadeiros estadistas não são definidos pelos compromissos que fazem, mas pelos que não fazem". Brownstein adverte que os democratas estão pegando a onda do hiperpartidarismo, estimulados por organizações como MoveOn.org e blogs esquerdistas. Mesmo a mídia tradicional encoraja o conflito sobre o consenso. Mas os democratas que ressurgiram, após anos nas trevas do reinado Bush, tendem a ser menos partidários do que os republicanos. A grande coalizão democrata é menos homogênea do que a republicana, que hoje está precária, como mostra a maior incerteza no partido para a escolha do seu candidato presidencial. Basta ver que apenas 52% dos democratas se definem com liberais, enquanto 77% dos republicanos se assumem como conservadores. Há um intenso debate político se os republicanos gostariam de enfrentar Hillary Clinton ou Barack Obama no duelo presidencial de novembro. A preferência pela ex-primeira-dama seria sua capacidade para polarizar e assim motivar a base republicana. Obama é um noviço, mas sua mensagem antipolarização é capaz de desarmar guerreiros-políticos. No seu livro, Brownstein expressa clara preferência por líderes presidenciais dispostos a barganhar com a oposição e mesmo incluí-la nas deliberações. A idéia seria montar coalizões expressivas e não o esquema Bush de 50 mais 1. O desgaste dos últimos anos nos Estados Desunidos da América sinaliza a necessidade de pelo menos uma trégua na segunda guerra civil. Barack Obama é o mensageiro mais eloqüente desta necessidade, mas isto não quer dizer que, necessariamente, ele ganhe as eleições e aqui estamos falando meramente das primárias. Brownstein arremata que "sempre foi verdade que um presidente pode ganhar pontos ao sacudir o punho diante dos inimigos, mas um que estenda a mão a seus inimigos poderá transformar a política americana". A decisão histórica em novembro caberá a eleitores que se mostram mais indecisos e independentes do que em votações passadas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.