O grande ator e seu tesouro de papel

Karin Rodrigues, viúva de Paulo Autran, não perdeu tempo nas doações: ''''Cada um desses documentos é de interesse público''''

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

Um homem recorta e cola meticulosamente notícias de jornal e as organiza em ordem cronológica durante anos e anos a fio. Ao longo do tempo, meio século, vai acumulando pastas e pastas com papéis amarelados. Mania de um taciturno, solitário e metódico? Nada disso. Tal homem é um artista. Ninguém menos do que Paulo Autran, o grande ator do teatro brasileiro, que morreu aos 85 anos, no dia 12 de outubro, no auge de seu prestígio, após ter protagonizado com brilho sua 90ª peça, uma deliciosa montagem de O Avarento, de Molière. Veja mais fotos do acervo pessoal de Paulo Autran Os documentos que guardou não só dão conta de sua trajetória de 50 anos de dedicação à arte teatral como se tornaram, também, após sua morte, registro precioso para e da história do teatro brasileiro. Seu talento de ator foi mais do que reconhecido, mas o de arquivista poucos conheciam. Surpreendentemente, nessa arte, ele também deixou uma vasta obra que vai fazer a alegria de muitos pesquisadores.Difícil descrever o prazer de folhear a pasta cuidadosamente indicada como a de número 1, com documentos que vão de 28 de junho de 1947 a 21de agosto de 1952. Ali pode ser visto o anúncio no jornal de sua estréia na peça A Esquina Perigosa, ainda como amador, no Teatro Municipal, em 1947. E nada como ler uma entrevista do jovem ator, publicada em 1950, que enche a boca para falar do trabalho mais difícil de sua carreira, a criação do personagem Balabanof (leia abaixo), da peça Amanhã se Não Chover. Mal sabia ele então que esse bufão o perseguiria por um bom tempo. Um crítico o ''''acusaria'''' de repeti-lo na peça seguinte e na outra ainda, algo que deixaria Paulo Autran muito preocupado. Afinal, muitos atores se perdem exatamente nesse ponto da carreira, ficam cristalizados num tipo. Paulo correu esse risco e escapou dele, mas quando dá a entrevista, ''''pescada'''' na sua primeira pasta, em 1950, ainda não vivera esses percalços e estava encantado com o personagem.São dezenas de pastas que oferecem infinitas possibilidades de abordagem numa pesquisa. Cada pasta traz na capa a data de início e fim do arquivo. Basta observar essas datas para perceber a evolução na carreira desse ator no que diz respeito à repercussão de seu trabalho na imprensa. Assim, se a primeira pasta comporta quatro anos, a 15ª reúne o material colhido entre janeiro de 1963 e outubro de 1964, menos de dois anos. Como é natural, ele precisa de pastas cada vez maiores para períodos menores. A de número 24 abarca o período que vai de outubro de 1970 a novembro de 1971.Dá para detectar ainda, mesmo nesse olhar superficial, períodos mais ou menos agitados. Por exemplo, as reportagens publicadas de julho de 1956 a dezembro do mesmo ano renderam uma pasta inteira para apenas seis meses. A 11.ª, tão volumosa quanto essa, reúne material de apenas quatro meses, entre setembro e dezembro de 1960. Há 39 ao todo, organizadas, e muitos envelopes pardos com material por organizar, dos últimos anos de carreira.O conteúdo? Os mais variados. Críticas, entrevistas, programas de peças, fotos. E ainda curiosidades como uma matéria ufanista publicada na revista Carioca sobre a estréia da peça Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, no La Huchette, um teatrinho do Quartier Latin, em Paris, na década de 50. Há ainda fotos de público em teatros como o Copacabana Palace, em 1950, mulheres de longo e piteiras, homens de terno. E fotos de camarim com diretores como Luciano Salce, um dos italianos que vieram ao TBC, mas que logo retornou ao seu país. ''''Acho que nenhum outro ator tem um arquivo assim, tão organizado'''', comenta Karin Rodrigues, a grande companheira dos últimos anos, em meio a fotos e pastas num dos quartos do apartamento onde morava Paulo Autran.Duas semanas depois da morte do ator, Karin recebe a reportagem do Estado no apartamento do ator. Ali, ela trabalha para separar objetos que seriam leiloados do acervo documental. ''''Gostaria que uma instituição séria tivesse interesse em preservar esses documentos que são de interesse público'''', diz Karin. Não precisou falar duas vezes. Ao primeiro contato, no dia seguinte, os responsáveis pelo centro de pesquisa do Instituto Moreira Salles - onde já está, por exemplo, o acervo do crítico Décio de Almeida Prado - prontificaram-se a cuidar do precioso acervo, imediatamente doado por Karin. ''''Paramos tudo para receber esse acervo; estou com toda a equipe trabalhando na primeira triagem, todas as fotos já foram envelopadas, vamos começar o tratamento em breve'''', afirma Liliana Giusti Serra, coordenadora de bibliotecas do Instituto Moreira Salles.No dia seguinte da visita do Estado, Karin avisou também ter doado os livros para a biblioteca da Escola Livre de Santo André. ''''E os prêmios (troféus) foram para o Sesc de São Paulo. O Danilo (Santos Miranda, diretor do Sesc-SP) vai criar uma exposição permanente com os troféus no Teatro Paulo Autran'''', comemora a atriz.Antes disso, em torno da cadeira de balanço do ator, espalham-se papéis, pastas, fotos, livros, estatuetas e chega a ser difícil focar o olhar. Uns papéis manuscritos chamam atenção. Aparentemente são anotações para uma palestra ou curso de teatro, em algumas páginas de caderno. São tópicos a serem desenvolvidos oralmente. Um deles dá bem conta do pensamento que norteava esse ator disciplinado, rigoroso, cujo processo de criação pressupunha criar um personagem sempre a partir de um texto, fechado, de preferência um clássico. Ele anota: ''''conceito (errado) de improvisação como um bem e não como último recurso''''.Num envelope pardo, uma série de páginas datilografadas. Escrito a caneta, do lado de fora, com letra de Paulo Autran: ''''depoimentos gravados: não presta''''. ''''Ele pediu para jogar fora, mas acho que não devo fazer isso'''', diz Karin. Não mesmo. Num trecho, está escrito: ''''Quando Ziembinski escolhia uma peça e dizia - ''''é delicadíssima, uma renda'''' - nós já sabíamos, o elenco já dizia: ''''Vai ser um fracasso.'''' E não dava outra. Era fracasso. Quando ele dirigia uma peça que os outros tinham escolhido, ele era muito bom.'''' Até aí, nada que ele não tenha declarado em entrevistas. ''''Paulo contava as suas histórias sempre do mesmo jeito, sem mudar uma vírgula'''', observa Karin.Um outro papel chama atenção. Trata-se de um contrato, informal porque tem como garantia apenas duas assinaturas, de Paulo Autran e Marília Pêra, mas que trata de formalidades como o salário da atriz na peça Pato com Laranja. Logo depois, solto, um outro papel, também um contrato, desta vez com a atriz Eva Wilma, para a mesma peça. Certamente muitos outros estão ali, entre aqueles papéis. Duas delas, lado a lado, chamam atenção. Sabemos que são de Décio de Almeida Prado, pois estão na coluna Palcos e Circos, do Suplemento Literário do Estado, de 20 de outubro de 1950. São duas críticas da mesma peça, Amanhã se Não Chover, publicadas em dois dias diferentes, uma abordando aspectos positivos, outra negativos. Certamente muitos são os tesouros desse acervo, agora preservado, e em breve disponível para pesquisadores.Em 1950, A Palavra Do Ator-RevelaçãoESCREVE PAULO AUTRAN: ''''Teatro é uma coisa engraçada: atrai sorrateiramente os que estão fadados a nele trabalhar e tem um visgo ali tal, que, ao primeiro contato, prende irremediavelmente. Falo de cátedra, pois foi o que aconteceu comigo. O teatro faz traições de normalista namoradeira e dá recompensas de amante. Quando foi da montagem de Amanhã se Não Chover, peça de Henrique Pongetti, Ziembinsky, que a dirigiu, após a primeira rápida leitura que faz para os intérpretes, distribuiu os papéis, entregando-me o de Balabanof, o anarquista russo grotesco, simplório e enfatuado. Não gostei. O que eu queria interpretar era o Donnard, o diplomata francês desiludido da diplomacia, que me parecia um personagem mais agradável e mais fácil de ser vivido. Com toda a ingenuidade do neófito que era, e ainda sou, em teatro falei com Ziembinsky, a quem, então, mal conhecia pessoalmente. Pedi, argumentei, disse-lhe o quanto gostaria de trocar de papel, que não sentia o Balabanof de modo nenhum, etc. etc. Tudo em vão. Ziembinsky, do alto de sua experiência artística, abanava a cabeça com toda a sua autoridade de diretor. Fiquei indignado inutilmente. No dia seguinte, começaram os ensaios. Eu, a priori, passei a me detestar como Balabanof, achando-me incapaz de dar qualquer inflexão de voz sugerida pelo diretor. Mas, água mole em pedra dura... A experiência do diretor era muito maior do que eu podia imaginar. De repente, não sei como, nem quando, nem por que, comecei a perceber que eu podia ''''ser'''' o Balabanof, que eu estava ''''fazendo'''' o Balabanof e daí por diante fui sentindo que me integrava cada vez mais no papel e passei a gostar dele. Finalmente, já não compreendia mais como é que eu poderia ter pensado em não querer fazê-lo.Amanhã se Não Chover é uma peça leve, divertida e despretensiosa, que gira integralmente em torno de Balabanof, um tipo suculento, realmente vivo e humano. Como eu disse inicialmente, o teatro engana, mas recompensa a quem o ama.''''

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