''O futuro está na TV de internet''

David Lynch acredita que o cinema, a televisão e o DVD atuais serão substituídos pela rede mundial

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

28 de julho de 2008 | 00h00

O homem que transformou o cinema em uma alucinante mistura de tempo, espaço, sexo e morte chega ao Brasil no domingo. O cineasta David Lynch desembarca neste dia no Rio de Janeiro, iniciando um périplo em que, até o dia 9, vai visitar também São Paulo e Belo Horizonte para divulgar seu livro Em Águas Profundas - Criatividade e Meditação (tradução de Márcia Frazão, 204 páginas, R$ 29,90) que a editora Gryphus lança nos próximos dias. Trata-se de uma série de capítulos curtos (alguns no formato de pílulas) em que o criador de Veludo Azul e Império dos Sonhos revela as influências da prática da meditação transcendental em sua vida e obra.Lynch tornou-se adepto da prática na década de 1970, antes mesmo de estrear no cinema com Eraserhead - o filme, aliás, era um dos preferidos de Stanley Kubrick, como Lynch revela, com orgulho, no livro. A aproximação veio com o interesse pelo movimento espiritual criado pelo guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, que seduziu outros simpatizantes como os Beatles.Inicialmente cético, Lynch cedeu à experimentação em 1973, convencido pela irmã. Ao lado de uma orientadora que se parecia com Doris Day, ele tomou conhecimento de um mantra, que deveria ser repetido em duas sessões diárias de 20 minutos para atingir um estado de ''alerta descansado''. ''Foi como se estivesse em um elevador cujo cabo se rompesse de repente'', escreve, no livro. ''Caí direto na mais pura felicidade.''A meditação, confessa, tornou-se um método eficaz para acalmar sua intensa inquietação, além de exorcizar demônios internos que, como bem sabem seus fãs, se transferiram para o cinema. Intuitivo, Lynch relata sua paixão pelas histórias impregnadas de abstração.Aos 62 anos e ainda fiel ao cabelo aparado rente dos lados e muito crescido no topo, Lynch não acredita no futuro do cinema - para o homem que criou imagens alarmantes, com lógica onírica, mudança de identidades e erotismo que transgride normas, o caminho está na internet. É o que ele comenta na seguinte entrevista ao Estado, realizada por telefone.Qual sua expectativa em vir agora ao Brasil?Bem, não sei ainda o que esperar. Já visitei outros 15 países para falar sobre minha obra, especialmente o livro, e, em todos, tive resultados muito felizes. Espero ter a mesma sorte em seu país. Gostaria, inclusive, de conversar com o presidente Lula, com quem falaria sobre paz.Esse tema faz pensar em seu livro, que traz alguns relatos autobiográficos mas que trata basicamente da meditação transcendental. Qual proveito ela lhe trouxe?Trata-se de uma técnica mental. Ela abre portas para o nível mais profundo da sua vida, onde navegam inúmeras sensações. Quando você atinge esse nível, quando você realmente transcende, descobre uma região de criatividade, amor, paz e inteligência infinitas, algo capaz de melhorar sua vida. Cresce a disposição para realizar coisas, pois o negativismo praticamente desaparece. Isso é importante pois, para mim, o pessimismo é inimigo do artista. Ao transcender, diminui a sensação de depressão, medo, tristeza e é possível trabalhar com a mente aberta. Nesse estágio, você consegue utilizar todo seu potencial, pois dispõe de mais compreensão e entendimento de tudo.É possível identificar no cinema, especialmente nos seus filmes, algum momento em que essa transcendência seja perceptível?Não acredito. O cinema e a música conseguem levar as pessoas a um estágio de imersão, mas, chegar a ponto de transcender, não creio. A transcendência é um ato único, muito forte, de atingir a felicidade - não uma qualquer, mas a felicidade irrestrita, ilimitada. Já o cinema é uma atividade que oferece a oportunidade do espectador atingir um nível de satisfação, mas não a um nível tão profundo. Gosto de falar sobre essas sensações, pois a transcendência é um ato natural. Muitas pessoas já atingiram esse nível sem perceber e tampouco sabem como repetir a experiência. Para se ter uma idéia, é uma sensação além daquela de quando se está chegando ao sono profundo, quando o corpo atinge um alto grau de relaxamento.Mas o senhor consideraria o cinema como uma diversão que provoca algum tipo de desligamento da mente?Para mim, cinema é a criação de um mundo no qual desfrutamos uma série de experiências. Trata-se de um mundo que oferece uma infinidade de possibilidades porque a linguagem cinematográfica é mágica. E, como cada cineasta usa sua criatividade de uma forma distinta, cada um também constrói um mundo diferente. Nesse caso, há experiências melhores que outras. O cinema pode abstrair, mas não acredito que consiga fazer alguém transcender. Para mim, o cinema deveria conduzir o público a níveis mais profundos e abstratos, dar indicações de caminhos ocultos, mas não conseguiria transcender.Isso aconteceria porque atualmente o público de cinema diminuiu sua capacidade de pensar, especialmente por conta do excesso de filmes que oferecem apenas diversão?Entendo o que você quer dizer, mas o ser humano é naturalmente dotado de sensibilidade. O problema é que a maioria dos filmes atuais é superficial, eles não exigem uma grande capacidade de compreensão. As tramas não oferecem provocações, apenas diversão. Quando se deparam com filmes mais densos, muitas pessoas sentem-se perdidas por não compreender, mas garanto que elas entendem mais do que realmente imaginam.Sobre seus filmes, gostaria que o senhor falasse especificamente de uma cena de Estrada Perdida em que uma música brasileira, Insensatez, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, é tocada integralmente.Ouço diferentes tipos de música e nem todas conseguem casar com a trama. Mas, no caso específico de Insensatez, logo fiquei muito atraído por ela. E, tão logo a coloquei no filme, percebi que a cena cresceu, atingiu o grau que eu esperava. Fico particularmente satisfeito quando consigo o casamento exato entre música e cena, o que aconteceu nesse caso.Uma de suas melhores obras, Twin Peaks, foi criada para a TV. O senhor pretende retornar para a televisão?Não, pois o futuro é a televisão de internet. Já está chegando. A TV que hoje conhecemos está condenada, assim como filmes realizados para salas de cinema e DVDs. Hoje temos de pensar no formato de internet e é o que pretendo fazer com meu trabalho.Meditações sobre A Arte De Filmar''Eraserhead é meu filme mais espiritual. Ninguém entende quando digo isso, mas é verdade. Eraserhead foi desenvolvendo de um certo modo que eu não entendia (...) Um dia acabei lendo uma frase. E fechei a Bíblia porque havia encontrado: a resposta estava lá''''Para mim, Duna foi um baita fracasso. Eu sabia que teria problemas quando concordei em não fazer a edição final. Minha esperança é que desse certo, mas não deu. Lamentavelmente, o resultado final não ficou com eu esperava''''Não sei por que a emissora deixou que Twin Peaks se tornasse um piloto. Mas quando permitem que alguma coisa se torne piloto, isso não quer dizer que vão transformá-la em seriado. (...) De qualquer forma, meu piloto obteve uma boa pontuação, embora não espetacular, mas a verdade é que teve um público enorme na noite de estréia. Foi a sorte grande''''O filme vem, para mim, em fragmentos. O primeiro é a peça do quebra-cabeça que orienta todo o resto. Em Veludo Azul, isso surgiu sob a forma de lábios vermelhos, gramados verdes e a canção Blue Velvet interpretada por Bobby Vinton. A idéia seguinte foi uma visão de uma orelha sobre a relva''''Não emito comentários de direção nas cenas de making of dos meus DVDs. Sei que as pessoas adoram os suplementos, mas, com todos os acréscimos de hoje em dia, o filme parece ter se perdido''''Depois que se trabalha com vídeo digital de equipamento leve, pequeno e com foco automático, o trabalho com película se mostra incômodo''CINEASTA PARTICIPA DE EVENTOS EM SÃO PAULO NO DIA 7 ROTEIRO: David Lynch desembarca no Rio de Janeiro no domingo, quando apenas descansa e passeia, preparando-se para a maratona. No dia seguinte, participa de uma entrevista com a imprensa, além de encontro com autoridades e de um evento noturno promovido pelo jornal O Globo.No dia 5, Lynch viaja a Belo Horizonte, onde vai conversar com mais de mil crianças e se encontrar com artistas até terminar o dia autografando o livro no BH Shopping. No dia 6, a agenda prevê um encontro com estudantes da Universidade Federal, seguido de uma recepção na Federação das Indústrias, onde o cineasta participa da programação da Semana da Paz.Lynch chega a São Paulo no dia seguinte. Entre 15 e 17 horas, ele autografa seu livro Em Águas Profundas na livraria Cultura do Conjunto Nacional. Haverá ainda uma conversa sobre a prática da meditação transcendental. E, à noite, a partir das 20 horas, estará na Faap para leituras e promoção da obra. A previsão é que o evento termine às 22 horasNo dia 8, ainda em São Paulo, ele grava entrevistas para programas de televisão e tem encontros com políticos, especialmente da área de educação. No dia seguinte, Lynch volta ao Rio e, pela manhã, participa de debate na Faculdade Estácio de Sá. E, antes de embarcar para a Venezuela, onde ficará no dia 9, grava mais uma entrevista para um programa de televisão.

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