O futuro das máquinas e dos usuários

O psicólogo Donald Norman diz que o design emocional vai afetar até os robôs

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de setembro de 2008 | 00h00

Até recentemente era incomum ouvir alguém se referir a objetos com expressões carinhosas ou de ódio. No máximo, elogiava ou execrava o designer. Hoje, com robôs que tocam trompete e fazem cirurgias, o convívio do design com a emoção é tão comum que até batizou o novo livro do psicólogo, engenheiro elétrico e professor da ciência da computação americano Donald Norman: Design Emocional (Rocco, tradução de Ana Deiró, 322 páginas, R$ 45).O autor de O Design do Dia-a-Dia, também lançado pela mesma editora, constata no novo livro uma mudança de atitude nos consumidores, alertando os fabricantes para o admirável mundo novo que vem por aí, ele que foi vice-presidente da Apple, co-fundador da Nielsen Norman Group, empresa de consultoria de desenvolvimento de produtos, e conselheiro da Evolution Robotics, que cria robôs domésticos. Norman concedeu ao Estado uma entrevista sobre as razões de adorarmos ou odiarmos os objetos, falando ainda da bizarra forma social que assumem além das funções mecânicas.Numa época em que o celular identifica tanto a pessoa amada como um credor, enternecendo ou entristecendo o usuário, é comum que até especialistas em design caiam em armadilhas "emocionais" ao se relacionar com objetos. O próprio Norman foi vítima de uma delas. Mais particularmente, do espremedor de laranjas do designer francês Philippe Starck, aquele objeto que parece uma aranha de Louise Bourgeois em versão reduzida - mas não menos erotizada. Norman comprou o Juicy Salif por impulso. Nunca conseguiu usar o espremedor, que, aliás, só funciona como objeto decorativo. "Trata-se de uma edição especial folheada a ouro, que ostento como uma peça de arte no salão de entrada", assume o psicólogo.Seu livro é povoado de objetos que intrigam o consumidor, que o deixam irritado ou fazem o pobre coitado sentir-se estúpido já na leitura do manual de instruções. O psicólogo odeia manuais. São os vilões do design contemporâneo, segundo ele. Se o design fosse bom, não precisaria vir acompanhado de bula, argumenta Norman, agora assumindo o lado engenheiro. Ele advoga a mudança do design, hoje centrado na tecnologia, para um terreno mais fértil, o do software dirigido ao humano. E profetiza: o computador tem dias contados. Tudo vai se resumir num único e simples celular, que, longe de ser apenas um instrumento de comunicação, é, segundo ele, "uma ferramenta emocional".Isso não quer dizer que Norman tenha chegado à conclusão de que vivemos no melhor dos mundos possíveis só por causa do celular, que ele define como um facilitador social. "Podemos entrar em contato com qualquer pessoa ao redor do mundo sem nos comunicarmos", diz, antes de proferir sua frase definitiva sobre o assunto: "Não quero que a tecnologia seja humana, mas que ela sirva ao homem." Não são as máquinas ou os robôs os vilões da história, como nos filmes de ficção, garante o autor de Design Emocional. "Máquinas inteligentes e emocionais não são sinônimos de máquinas diabólicas, elas apenas obedecem ao comando de pessoas boas ou perversas." Isso por enquanto. Ele admite que, no futuro, robôs possam ser capazes de gestos afetivos ou se de comover com o drama do andróide de Blade Runner.Há um capítulo só sobre robôs no livro, mas o que interessa a Norman é como um carro antigo como o mini Cooper S da BMW pode produzir tanta felicidade, ao contrário de um computador travado, que tanto ódio provoca no usuário, a ponto de ser estapeado e xingado como a um juiz de futebol. Esse aspecto emocional, admite, está ausente de seu livro O Design do Dia-a-Dia. Ele concluiu, depois das críticas que recebeu ao livro, existirem objetos "usáveis" mas nem sempre prazerosos de usar. A lógica pode tomar decisões por nós, mas objetos capazes de provocar emoções podem nos fazer trabalhar melhor.Como o futuro é incerto e tudo o que faz lembrar dele nos atemoriza, buscamos, de modo inconsciente, um porto seguro no passado. "Vivemos uma nostalgia do futuro imaginado na época de Flash Gordon", diz Norman, reconhecendo que o que se vive hoje é uma amarga distopia, a ponto de justificar o design "otimista" e retromaníaco de um carro como o PT da Chrysler. " De modo geral, as pessoas reagem emocionalmente a um objeto, antes de avaliá-lo intelectualmente", analisa, prevendo que as máquinas do futuro serão capazes de interagir com o usuário ao perceber nele sentimentos de amor e ódio. "A popularidade do velho estilo é um exemplo de que a emoção vem antes da cognição, pois uma pessoa antenada com o design contemporâneo teria outra reação diante dele." Mas, beleza e função nunca andaram juntas , desde Herbert Read. Nem forma segue função. Norman, concordando com o jornalista Tom Wolfe (A Fogueira das Vaidades), considera a Bauhaus culpada pela disseminação desse culto que contaminou o planeta.

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