O futebol dos escritores

Você não vai acreditar, mas fui chamado para jogar futebol na Vila Belmiro no dia 7 de setembro. A partida fazia parte da programação da Tarrafa Literária, um evento cultural em Santos. À tarde, discutiria a relação entre futebol e literatura com o escritor Xico Sá e o apresentador do programa de televisão Cartão Verde, Vladir Lemos. Antes, de manhã, disputaríamos uma partida contra um antigo time de várzea, o Bangu, fundado na Vila Belmiro em 1962, e chamado, pelos íntimos, de Banguzinho.

, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

Mas ao chegar à cidade portuária, fui informado que o endereço da peleja havia mudado. Como chovera forte no dia anterior, sugiram preocupações com o gramado do estádio. Jogaríamos em uma quadra de futebol soçaite para não atrapalhar o time do Santos.

Fui escalado na zaga, como costuma acontecer com peladeiros apelidados de "gringo" ou "alemão". Comigo na defesa estava Vladir, embora este se posicionasse um pouco mais à frente. No meio-de-campo, emprestado da Academia Paulista de Letras, jogaria Jorge Caldeira, ou Cafu, autor de Mauá: Empresário do Império. No ataque escalamos José Roberto Torero, autor de Chalaça, e o editor e organizador do evento, José Luiz Tahan.

Achou-se prudente ceder ao nosso time o goleiro do Bangu, Marcão. Ele jogara nos juvenis da Portuguesa Santista e do Santos e poderia evitar um possível vexame. Logo passou a comandar a equipe, distribuindo os jogadores em campo.

Nosso goleiro me destacou para marcar o Muralha (Walter), principal atacante do Bangu. E tentei me grudar nele, como se diz. Fui percebendo, aos poucos, no entanto, uma relação entre literatura e futebol que ignorava até então. O atacante adversário me contava histórias enquanto esperávamos a bola chegar. Muralha comentava o calor, o sol, a cor da minha camisa (preta) para, antes de concluir o raciocínio, sumir. Ficava eu ali sozinho na defesa, marcando bobeira, como se diz, aguardando a conclusão da narrativa. Uma situação perigosa, essa, que resultava numa bronca imediata por parte do goleiro.

Para meu fascínio, Marcão narrava o jogo, aos berros, antes deste acontecer. Dizia de onde viria a bola. Quem iria recebê-la. Mandava o Cafu voltar. Vira e mexe, gritava para eu prestar atenção ao Muralha, senão ele iria girar para a direita - "é destro" - e marcar um gol. De dentro do campo, parecia ter o dom da vidência, o Marcão. Armava até algumas jogadas de ataque do nosso time. Isso é que é visão de jogo, pensei, a certa altura da partida. Era outro plano narrativo a se desenrolar ao longo da disputa: uma espécie de narrador onisciente que comenta com antecedência a ação propriamente dita, tentando evitar - ou garantir - que esta se realize. Não sei se existe narrador semelhante na literatura do Brasil ou do mundo.

Aguentei o primeiro tempo. Pedi para sair antes de sofrer um episódio cardíaco e fui sentar no bar, ao lado do Clodoaldo, irmão do Muralha. Confirmou ele o que acabara de aprender: marcar seu irmão não era nada fácil. Levei o comentário como um elogio.

Nosso time de escritores acabou perdendo pelo placar de 2 a 0. Pareceu-me um resultado honroso diante das circunstâncias. À tarde, discutimos literatura e futebol no Teatro Guarany, lindíssimo depois de uma restauração. A Tarrafa Literária é um evento delicioso. Só a discussão sobre história do Brasil, entre Cafu (Jorge Caldeira) e Laurentino Gomes, a que assisti na noite de domingo, valeria a viagem até o balneário. (Sem falar de outros grandes nomes presentes, como Milton Hatoum, Amyr Klink, Ruy Castro, Arnaldo Antunes...) Não tenho a pretensão de ser chamado para falar de novo, no ano que vem. Mas gostaria de ser escalado para o jogo.

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