O frango mítico

O diálogo entre os assassinos Vince Vincent (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel Jackson) no início do filme Pulp Fiction já é clássico. De volta aos Estados Unidos depois de uma temporada na Europa, Vince explica para Jules algumas das peculiaridades da cultura no velho continente. O Quarter Pounder, sanduíche do McDonald''s conhecido aqui como Quarteirão, é chamado de Royale with Cheese em Paris, exemplifica. Essa é, teoriza, uma das pequenas diferenças que distinguem os cotidianos dos dois lados do Atlântico. Quando Jackson pergunta qual o nome dado na França ao Big Mac, Travolta responde: ''Bom, um Big Mac é um Big Mac, mas lá eles o chamam de Le Big Mac.''É genial o diálogo, como se sabe. Um dos grandes momentos do cinema nas últimas décadas. Quando assisti ao filme, pela primeira vez, no Largo do Arouche, mal consegui me conter na poltrona. Quase saí pulando de alegria. Em um minuto e meio o diretor Quentin Tarantino recolocara toda a discussão do imperialismo nos termos da cultura popular americana.Morri de inveja. Anos antes, em um momento tênue da minha vida profissional, desprovido de vínculos empregatícios, eu havia enviado uma carta para o McDonald''s. Sugeri à empresa que patrocinasse uma viagem minha ao redor do globo. Comeria nas suas lanchonetes em 40 países e relataria a experiência em um livro, espécie de Pé na Estrada global do fast-food. Buscava, justamente, as pequenas diferenças. Não me recordo se cheguei a citar o livro de Jack Kerouac. É possível. A empresa não chegou a responder, não sei por quê.Entro no McDonald''s sempre que vou a um lugar novo. Quando fui a Paris pela vez, na Copa de 1998, irritei o escritor Mario Prata, que me acompanhava, ao visitar a lanchonete no Champs Elysées antes de ir ao Louvre. Àquela altura, Pulp Fiction fizera do McDonald''s da famosa avenida francesa um ponto cult.Lembrei-me disso ao encontrar na revista Fortune uma reportagem dedicada às adaptações realizadas pela rede de lanchonetes em diferentes países. O McDonald''s faz mais sucesso fora do que dentro dos Estados Unidos, há algum tempo, segundo a respeitada publicação de negócios. O cardápio varia. Se Vince Vincent voltasse, hoje, da Índia, poderia dizer para Jules que, por lá, um Big Mac é conhecido como o Marajá Mac, e traz recheio de frango frito.Quem sabe se não rola esse diálogo num eventual Pulp Fiction 2? Imagino o Vince mais velho e meio místico depois dos seus anos na Índia. A globalização, afinal, entrou em outra fase.Fiquei surpreso ao descobrir, por exemplo, que o Big Tasty, sanduíche de sucesso no Brasil, foi inventado na Alemanha e aperfeiçoado na Suíça. É enorme. Traz um pedação de carne. Soma, com suas três fatias de queijo, 840 calorias. É um dos itens mais vendidos na Europa, na Austrália e na América Latina. Mas não vingou nos Estados Unidos. O motivo? É grande demais, acredite se quiser. Setenta por cento do movimento do McDonald''s americano passa pelo drive-thru. Comer o Big Tasty no automóvel é impraticável, segundo a revista. Há limites para tudo.Na ilha de Taiwan, o Rice Burger, ou hambúrguer de arroz, é a estrela do cardápio. Quem tiver curiosidade pode assistir a dois comerciais para o sanduíche no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=N7X7ip-YkLs&NR=1). Não entendi muito bem, mas a pronúncia chinesa de Rice Burger é deliciosa. Há também o já famoso Bulgogi Burger, oriundo da Coréia do Sul. É feito de carne de porco com shoyu. O prêmio de melhor nome, no entanto, vai para o frango mítico. Só mesmo na França é possível chamar um sanduíche do McDonald''s de Chicken Mythic sem dar risada. Como diria meu amigo, o filósofo popular Marcão: ''Há coisas que não mudam nunca.'' A cultura francesa é uma delas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.