O fim das minorias

Uma das idéias boas que o professor Antônio Pedro Tota teve este ano foi a de compartilhar uma assinatura da revista New Yorker comigo. Antes eu ficava na banca da Fnac, em Pinheiros, namorando cada edição importada até decidir se valia ou não o investimento de R$ 30. A assinatura é mais barata. Serve, ainda, como desculpa para ir a pé até a casa do professor, pegar as edições novas e comentar os textos das antigas. Gostaria de fazer o mesmo com outras revistas e outros amigos meus.A única desvantagem é que a New Yorker chega sem periodicidade definida, em lotes, não sei se pelo navio. De modo que acompanho o debate nova-iorquino com um pequeno atraso. Li, na semana passada, por exemplo, uma análise da trajetória de Barack Obama, escrita no calor da batalha com Hillary Clinton, sabendo que era ele o candidato do partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos. O texto, de George Packer, discutia a relação do Obama com seu radical e, em alguns momentos, rancoroso, ex-pastor, o reverendo Jeremiah A. Wright Jr. Sim, aquele do YouTube. O debate entre os dois líderes negros é antigo: a divisão principal nos Estados Unidos se dá entre raças ou classes sociais? Obama, de acordo com o artigo, sempre defendeu a segunda opção, mas cedia aos argumentos do pastor, em deferência à idade, ''às memórias de humilhação, dúvida e medo... a raiva e rancor daqueles anos''.Percebi, ali, naquele texto da New Yorker que a década de 1960 finalmente acabou nos Estados Unidos. Pode parecer que a vitória de Obama, o candidato negro, represente um retorno aos embates dos anos de chumbo, mas é o contrário disso. A cor da sua pele permite deixar para trás divisões antigas entre os grupos que disputavam a primazia da discriminação: negros, gays, feministas e hispânicos, entre outros. O Partido Democrata mudou de assunto, ao que tudo indica. Já estava mais do que na hora. Curiosamente, a vitória do candidato negro esvaziou a política das minorias. A era de ''identity politics'' se foi.Com os candidatos definidos, desconfio que a eleição à Presidência dos Estados Unidos se dê em torno do papel daquele país no mundo, através de três temas: a economia, a Guerra no Iraque e a energia. Todos muito ligados entre si. O fracasso da administração Bush e o avanço dos países emergentes mudaram o momento mundial. Como bem colocou o jornalista do New York Times, Roger Cohen, escrevendo do Rio de Janeiro: ''Durante um tempo o mundo era plano. Agora está de cabeça para baixo.''Ele nota que a outrora periferia está avançado sobre o centro. Empresas latinas e asiáticas competem para comprar firmas americanas. O Brasil está se tornando uma grande potência nas áreas-chave de agricultura e energia. A globalização está se virando contra os globalizadores. Fala-se no século da China.Como os Estados Unidos vão reagir a isso talvez seja a grande questão dos próximos anos. Os americanos estão receosos - e ainda ressabiados pelos ataques terroristas. Mesmo os menos inclinados a debater o cenário internacional percebem a mudança no preço da gasolina.O processo é inexorável, mas há um complicador. Os Estados Unidos ainda detêm boa parte do poderio militar e a responsabilidade pela segurança global, como lembra Cohen. Barack Obama coloca-se como o candidato da diplomacia e do entendimento, dispondo-se a negociar com todos os líderes do planeta. John McCain, seu adversário republicano, se aproxima mais da política agressiva do Bush, baseada, internamente, no medo. Diz que Obama é inexperiente e ingênuo.Nesse cenário, não cabe a tradicional pergunta, feita a cada eleição norte-americana: ''Quem é melhor para o nosso país?'' A globalização da economia transformou a geopolítica. Diria eu que vale, sim, aquela antiga frase, de Juracy Magalhães, hoje folclórica: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.Num mundo de ponta cabeça, aliás, não surpreenderia se o presidente dos EUA fosse negro.

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