O filme que leva inovação a Veneza

Marcelo Gomes explica como nasceu Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, dirigido em parceria com Karin Aïnouz

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2009 | 00h00

Na sexta-feira, o Festival de Veneza verá um filme brasileiro com título que parece tirado daquelas mensagens de para-choques de caminhão, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo. O longa, que mescla de maneira criativa a linguagem do documentário e da ficção, é dirigido por Marcelo Gomes e Karin Aïnouz, que já tiveram sucesso em suas carreiras individuais. O cearense Karin com Madame Satã e O Céu de Suely. O pernambucano Marcelo com Cinema, Aspirinas e Urubus. São diretores de ponta do cinema nacional contemporâneo e concorrem na mostra Horizontes, que privilegia a inovação da linguagem cinematográfica. Abaixo, a entrevista com Marcelo Gomes.Primeiro, queria saber sobre a ideia de dirigir em parceria, vocês que já haviam tido experiências individuais bem-sucedidas. Qual foi o desafio de dirigir "a quatro mãos"?Começamos a colaborar em 1996, quando éramos jovens, na época dos nossos primeiros longas. Foi tão prazeroso trocar ideias sobre esses roteiros que o filme vem como resposta à necessidade de fazermos algo juntos. É um trabalho que se dá através do diálogo, da discussão e raramente estamos de acordo num primeiro momento. Mas, no fim dá tudo certo porque temos um desejo similar em relação ao cinema: do que gostamos de ver, do que admiramos e o mais importante: do que queremos descobrir, de novos caminhos, do desejo de "bagunçar"com a linguagem cinematográfica, de pensar novas narrativas, no meio-fio entre o documentário, a ficção e as artes plásticas. Na realidade, Viajo Porque Preciso é nosso primeiro longa, que começamos há dez anos e acabamos agora.Achei bem original a ideia da voz off o tempo todo. O protagonista que não aparece. Como surgiu? Que impacto pode ter no espectador? O filme é como um diário de viagem e os diários, a priori, não são feitos para serem lidos porque são secretos, íntimos, impressões particulares sobre o mundo. Imaginar a quebra desse segredo foi nossa estratégia, o ponto de partida. A narrativa em primeira pessoa expõe a intimidade, as dúvidas, a vulnerabilidade do personagem. Nossa ideia é que o personagem fosse viajando e fazendo fotos, filmes, gravações, fitas cassete com músicas, juntando objetos, sons, ou seja, um personagem que colecionando impressões para transformá-las num álbum ou diário audiovisual. É necessário ver um personagem para um filme ser narrativo? É preciso que a narrativa tenha causalidade para o filme existir? Precisamos ver o protagonista para se identificar com ele? Cada espectador pode construir o personagem que imaginar.Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, que título, hein? Fale um pouco sobre ele. Parece mensagem de para-choque de caminhão...Nosso personagem Zé Renato é geólogo da classe média que viaja pelo sertão e vai se contaminando por aquela paisagem, por aqueles universo da estrada, das frases de caminhão, dos desenhos no banheiro, das músicas que escuta no rádio. Então as imagens refletem os sentimentos de Zé Renato que está passando por um momento de desenlace amoroso e aquela frase, escrita no banheiro e usadas em muitos para-choques de caminhão, se cristaliza em seus pensamentos. A trilha sonora também são músicas românticas que escutamos durante as filmagens. Tem desde o Noel Rosa, da década de 1930, às músicas pop que o personagem fica ouvindo o tempo todo enquanto está viajando, passando por uma trilha sonora composta especialmente para traduzir as sensações dele. Há também a música Morango do Nordeste que tocava em todo lugar quando nós estávamos viajando por aquela região. Não tinha como fazer o filme e não colocar.Filme de estrada para conhecer a realidade do Brasil. Esse é o mote? As impressões do Zé Renato, mesmo particulares, revelam um mundo ao redor. E esse mundo ao redor é um Brasil em transformação. Um mundo híbrido, entre o artesanal e o tecnológico, um Brasil rural que vive um processo de modernização desenfreada. Essa seria uma fricção revelada, entre o rural e o urbano, mas há outras, como o documentário e ficção, o íntimo e o público, o que é o cinema e o que será o cinema.É uma ficção com viés documental? Um doc ficcional? Mescla dos dois? Como vocês veem o intercâmbio desses dois gêneros hoje? Depois do Coutinho ficou difícil definir os gêneros. E o filme de vocês acho que acrescenta mais um desafio à coisa.Viajo é uma experiência, um ensaio cinematográfico. Já fizemos instalações, já trabalhamos com documentário, escrevemos ficção. Nosso desejo é procurar caminhos para contar histórias utilizando diferentes suportes, fundindo linguagens. O filme foi, afinal, um exercício de costurar, um bordado de emoções. Nas artes plásticas, no campo da videoarte há muita apropriação de material ficcional para construir um documentário e vice-versa. Estamos em 2009. O cinema, como o mundo, passa por um momento de reinvenção. O videogame, os quadrinhos, os filmes feitos em celulares, a música gratuita, os jogos interativos, os sites de relacionamento. Nunca a narrativa linear foi tão colocada em questão, nunca o cinema foi tão infectado por um meio de comunicação como a internet. O filme veio como necessidade de dialogar com fotolog, youTube, internet, de uma vontade imensa de olharmos para um estado de coisas que nos atiça. O frescor do erro e acerto, de buscar sem a obrigatoriedade de acertar. Para nós, é um filme de aventura também. Um road movie, como gênero, é de aventura, e esse filme é o registro de uma aventura, dentro de um âmbito de alegria. Viva o prazer de fazer cinema, e de não saber fazer cinema. Viva o prazer da invenção.Mas também trata de uma história de amor, ou desamor, ou cura do amor perdido. Ele tem um tom desalentado, até no registro fotográfico. A identidade masculina está em crise. Por crise não digo problema, mas mudança. O masculino passa por um momento que aponta para uma mudança de rumo, para um outro desenlace. O papel do homem como pai, como marido tem mudado significativamente. A própria identidade masculina está em processo, está sendo ?rearrumada?. O mundo vai ficando cada vez mais complexo e, de uma forma ou de outra, é interessante tecer um contraste entre diálogos e transições e falar de sentimentos eternos. Estavam em Shakespeare, estavam nas tragédias gregas, estão por aí desde sempre: o amor ou o desamor. O mais interessante é descobrir um caminho particular para falar de algo universal, que é a solidão, o abandono, um mundo em transmutação. O nosso é um melodrama que se enrosca em um filme de estrada, com um personagem aferrado à terra, um geólogo, um macho - um macho que às vezes é impotente, e que às vezes explode de tesão. Não lidamos com o clichê da mulher abandonada, mas com um homem que diz tudo que não tem coragem de dizer, só que para um gravador no meio de um deserto. No filme, as águas que serão transpostas para inundar essa região são espelho do que o personagem sente. Ele crê num lugar utópico, mas a utopia é um não-lugar, um embate: onde você está agora versus onde você queria estar. José Renato quer continuar a viver, mas não sabe o que será dessa vida.Ao mesmo tempo, a questão social do interiorzão do Brasil está bem inscrita na tela. A ideia foi fazer uma mescla das duas coisas? Nosso cinema é de personagem, ele está no centro de tudo. Por isso, a trilha sonora tem faixas construídas para traduzir o sentimento desse personagem. As imagens são experiências do personagem atreladas aos sentimentos dele. Ele levou um pé na bunda e estabelece uma relação com aquele lugar por onde viaja. De início, parece nostálgica e romântica, mas aos poucos vai se tornando real. Desse modo, a música também faz parte da narrativa emocional do personagem, da construção de uma história guiada pelas emoções e sensações, que é o que nos interessa. E o Brasil está ali presente, um Brasil particular, próprio mas real.

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