O filme mais polêmico

O francês Entre os Muros da Escola é o mais comentado atualmente em São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

Tocados, revoltados, emocionados. Duas salas do Unibanco Arteplex, a 8 e a 9, equipadas para projeções digitais, lotaram no sábado pela manhã para assistir a Entre os Muros da Escola. O filme de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro de 2008, já teve algumas exibições no Clube do Professor, iniciativa de Patrícia Durães que, todo final de semana, lota salas dos circuitos Unibanco e Arteplex pelo País de educadores que buscam no cinema uma ferramenta para o enriquecimento da atividade profissional. Para a maioria, senão todos, é mais que atividade profissional. É vocação - e por isso tantos reclamaram, a partir do filme francês, de uma realidade nacional e local. A escola pública em São Paulo virou uma fonte de estatísticas. Cumpre metas que os governos estadual e municipal tratam de exibir. Mas o estudante não pode ser um número. Ele é um indivíduo, tem uma identidade. Na escola pública, seus problemas de rendimento não podem ser dissociados do histórico familiar. Pai que bate na mãe, irmão drogado, tia prostituta.Esse histórico não é de todos, bem entendido, mas é de muitos (a maioria?). Qual é o papel do professor nesse processo? "Leciono inglês numa escola noturna", diz Maria Concetta. "A escola noturna já é, por si só, um problema, ou uma realidade distinta da que mostra o filme. Os jovens trabalham o dia inteiro e chegam à escola exaustos. São dispersos. Todo dia eu me pergunto se estou conseguindo passar os conteúdos, se eles estão absorvendo, se o método funciona? No limite, todo dia eu me pergunto se estou fazendo a coisa certa."Havia dois cineastas ?infiltrados? na sessão. Lincoln Shedd, filho de professora, acompanhou toda a carreira da mãe. Ele se interessou, digamos assim, pela dramaturgia do filme. "A situação geral é muito envolvente e fica conosco, mas eu não creio que, cinematograficamente, seja um grande filme. Podem-se criticar certas escolhas do diretor. Eu, por exemplo, queria saber mais sobre aqueles estudantes fora da sala de aula. Existem momentos, reações, em que o ?saber mais? seria necessário para mim." A opção do diretor Cantet foi realmente por concentrar seu filme na sala de aula, que vira espelho da realidade multicultural francesa, com todos aqueles jovens descendentes de imigrantes. Mas a França não está interessada em se adaptar a esses jovens. A recíproca é que é verdadeira e a língua - o francês de Molière - vira uma barreira.Amílcar Claro, o outro cineasta, pelo contrário, admirou muito a forma do filme - a construção/desconstrução/reconstrução dos diálogos, por meio da improvisação, e as imagens roubadas pelas três câmeras com que Cantet filmou todas as cenas, segundo disse o próprio diretor ao Estado. "Só três? Existem cinco créditos para captação da imagem. Acho que foram mais do que três, mas, de qualquer maneira, é muito forte. Há sempre outro filme em paralelo. É só prestar atenção a tudo aquilo que a câmera rouba dentro da sala de aula. Parece um documentário."Por que um diretor de cinema vai ver um filme como Entre os Muros da Escola numa sessão do Clube do Professor? "O assunto me interessa duplamente, não só como pai de alunos - e eu me preocupo com o nível do ensino que meus filhos estão recebendo", explica Claro. "É que também estou realizando um documentário sobre a escola. Fazendo a Ponte documenta a escola de José Pacheco, um educador português que trouxe para o Brasil o modelo da Escola da Ponte, que desenvolveu numa vila distante 30 km do Porto. É o oposto do modelo autoritário da escola brasileira que estamos discutindo aqui", observa Claro. A crítica desse modelo aflorou imediatamente, tão logo foi iniciada a discussão. Beatriz Andrade Silva é professora de português na mesma escola em que Maria Concetta leciona inglês. "Sou professora há muitos anos, de uma escola que tem sido muito assediada pela imprensa, porque cumprimos as metas do ensino propostas pelo governo. Mas estamos proibidos de nos manifestar criticamente. A lei da mordaça é uma arma da administração para inibir críticas."J. Augusto é psicólogo, consultor motivacional. Apesar das diferenças entre França e Brasil, ele acredita que a essência dos problemas é a mesma. "A sala de aula e a escola são espelhos da sociedade. Se a sociedade vai bem, a escola vai bem. Se vai mal, a escola vai mal.Não é possível termos uma escola exemplar como espelho de uma sociedade marcada por distorções." É o que também pensa Anna Blandina. Ela se inflama quando defende que o aluno deve ser reconhecido como pessoa, não como número, numa estatística. "Tento sempre aprender os nomes de todos os alunos. Às vezes eles próprios reclamam na chamada, dizendo que vai mais rápido se for pelo número. Mas eu acho importante reconhecer em cada um deles a sua identidade."

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