O feminino de Tom Zé está na bossa

Cantoras da nova geração, como Márcia Castro e Tita Lima, dão voz às composições que agora fecham sua trilogia de estudos

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2008 | 00h00

Dois banheiros deveriam levar o Prêmio Nobel, na opinião de Tom Zé. O primeiro seria o de Arquimedes em Siracusa, na Sicília, que descobriu, enquanto tomava banho, que todo corpo mergulhado num fluido sofre uma força vertical para cima (o tal do empuxo), cuja intensidade vai de acordo com o peso do fluido deslocado pelo corpo. O segundo banheiro seria o de João Gilberto, lá em Juazeiro, na Bahia. "Foi cantando no banheiro que ele teve o insight de que a voz humana podia fazer o que ele especificamente inventou: um novo uso da garganta humana", filosofa Tom Zé, sempre se divertindo. Ouça trecho de Rio Arrepio João Gilberto e todo o movimento que ajudou a impulsionar a partir do ano de 1958 sempre "estremeceram" seu conterrâneo nascido em Irará - ao mesmo tempo que o inspirava a seguir no sentido inverso do que começava a ser delineado como bossa nova. "Mas agora eu quis cometer essa traição de abandonar o oposto e me tornar o anjo. Sempre trabalhei no limite entre o som e o ruído. Agora, com a bossa nova, eu tenho de dizer: perdoem-me amigos! Eu venho traí-los neste CD melódico inspirado no contemplativo", suplica o eterno tropicalista.Para dar voz às letras e encorpar os arranjos que Tom Zé vem trabalhando desde 2003 ("porque não sou gênio, sou japonês e faço as coisas com lentidão"), o músico contou com a ajuda de João Marcelo Bôscoli e Patricia Palumbo, apresentadora da Rádio Eldorado, para juntos selecionarem a nata feminina da música brasileira atual. Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Zélia Duncan, Marina de la Riva, Anelis Assumpção e Badi Assad formam o harém de Tom Zé, na origem da palavra, como explica a seguir: "Quando Moisés agonizava na cama, já com a idade avançada, os hebreus convidaram moças para o visitar e assim, com a proximidade, darem mais vida a ele. Foi o que aconteceu comigo agora."A idéia de produzir um CD inspirado na bossa nova - ou "plagiado", como ele mesmo afirma, sem nenhum pudor - acompanha o momento mais feminino que Tom Zé acredita estar vivendo. Aos 72 anos, ele chegou até a se preocupar com essa mudança radical em seus "quereres e quimeras". Derramou-se em composições sincopadas que, em sua maioria, alude às clássicas do gênero (Filho do Pato, Barquinho-Herói e Roquenrol Bim-Bom são ótimos exemplos), pediu aprovação de d. Neusa, sua esposa e empresária, e finalmente decidiu chamar esse processo de Estudando a Bossa - Nordeste Plaza, com o qual garante botar fim aos seus estudos, iniciados com o samba (1976) e o pagode (2005).O subtítulo Nordeste Plaza remete ao shopping da Água Branca que freqüenta, o West Plaza. "Assim como o Rio foi invadido pela voz e pelo trem vindo de Juazeiro, o trem de São Miguel Paulista aportou no West Plaza, apelidado de Nordeste Plaza", explica Tom Zé sobre mais um ingrediente do seu caldeirão. O novo álbum não tem a pretensão de prestar homenagem ao gênero. "Não tenho cacife pra isso. A minha aspiração máxima é que os ouvintes possam cantar as canções lavando prato. Ou arrumando a casa." ServiçoTom Zé. Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, Pq. do Ibirapuera, 3629-1075. Hoje e amanhã, 21 h; dom., 19 h. R$ 30

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