O faz-de-conta a serviço da verdade

A Cidade das Palavras reúne cinco palestras de Alberto Manguel sobre a incontornável necessidade de ler e contar histórias

Wilson Bueno, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, acaba de ter novo livro publicado entre nós - A Cidade das Palavras (The City of Words). Reunião de cinco palestras que proferiu dentro do já famoso ciclo de conferências Massey, patrocinadas pela Canadian Brodcasting Corporation - CBC. Nelas Manguel propõe uma síntese reflexiva em torno das razões através das quais os humanos somos movidos pela incontornável necessidade, aparentemente banal, de ler e contar histórias.Desde os primeiros grunhidos da espécie, a nomear, aterrorizada, raios e trovões, noites e terremotos, há mais de 50 mil anos, no que se convencionou chamar de o nascimento da linguagem, até as incipientes gravações cuneiformes a registrar em tábuas de argila, 5 mil anos atrás, o teor da angústia e do pasmo da consciência de vivos, a nossa história é a história de muitas histórias. Das canhestras inscrições primitivas nas cavernas de Altamira à última geração de computadores da Nasa, o homem, de um modo ou de outro, não descuidou jamais de tornar a linguagem - substância aérea -, factível, pela via de sua "concretização" na pedra ou no pergaminho, no livro ou nas placas de silício das atuais tecnologias.Nos cinco ensaios que, por assim dizer, constroem este A Cidade das Palavras, livro urdido através de temas diversos entre si, mas costurados todavia pelo denominador comum da busca de uma decifração das grandezas e misérias da linguagem, Alberto Manguel realiza erudito e oportuno mergulho nas histórias e desestórias de nossa precária existência. Com o brilho de uma inteligência invariavelmente sagaz; e, o melhor, sem medo de denunciar a pseudoliteratura que grassa por aí, useira e vezeira em "congelar" através de um naturalismo mercantilista e fascistóide a essência mesma da linguagem.Já no primeiro desses acordados textos, Manguel relembra, entre outras, o mito de Cassandra, a sacerdotisa grega que recebe de Apolo o dom da profecia mas que, após uma noite de amor, ao lhe negar o último beijo, ele a amaldiçoa. Cospe o deus, então, nos lábios dela, condenando-lhe os vaticínios a "vergonhoso" descrédito. Cassandra insistiu, entanto, nas profecias. E, exemplar, a queda de Tróia se deve ao fato, simbólico em todos os sentidos, de que ninguém pôs fé em seus dons adivinhatórios. Bem que ela advertira contra o cavalo de madeira dos gregos. Mas para oficiais e a soldadesca, era tudo "romance", era tudo figura... Deu no que deu.E não se trata de mesmíssima natureza as histórias que contamos e ouvimos contar? Jorge Luis Borges, de quem Manguel é claramente devedor aqui e em outros ensaios, anotava que o ato de ler ficção importa, antes de tudo, em que suspendamos temporariamente a crença, de resto obtusa, em toda e qualquer "verdade". Sem isso, como nos abstrairmos da realidade imediata que nos cerca para abraçar o imaginário, a fantasia de alguém que inventa mundos paralelos os quais tacitamente concordamos sejam "mentirosos", "inventados", "irreais"? Contudo, que de cavalos de Tróia essas aparentes "mentiras" guardam em seu ventre!... Daí a fé que nelas depositamos.Ainda na conferência em questão - pontuadas todas, aliás, por argutas epígrafes -, Alberto Manguel lembra o gênio, bastante esquecido, ressalte-se, de Alfred Döblin (1878-1957), autor, entre outras obras maestras, de Berlin Alexanderplatz. Um escritor "de" e "para" a linguagem, o ficcionista alemão chegou a escrever, nos lembra Manguel, um romance em que imagina a "cura" de nossa sociedade, sempre enferma, pelas palavras "purificadoras", porque críticas, da psicanálise.Parece prosaico, mas jamais lembramos de que não precisamos, por exemplo, de ninguém, para respirar, dormir, comer. Mas, é bom lembrar, e principalmente crer, jamais falamos sem que haja alguém para ouvir! E isso, segundo Döblin, foi o melhor modo que o ser humano encontrou de amar seus semelhantes.E não só conta quem fala, mas também quem ouve (ou lê...) Alberto Manguel ilustra a conferência com uma historieta magistral e conclusiva: "Em meados do século 18, o rabino Uri de Strelisk indagou-se: ?Davi era um homem de muitos dotes, capaz de compor salmos. E eu? O que eu sei fazer??; e respondeu assim: ?Posso lê-los.?"Em outro admirável momento dessas Conferências Massey, o escritor argentino-canadense vai às origens da escrita e das lendas, trazendo-nos a fábula mesopotâmica e inaugural de Gilgamesh. A epígrafe do ensaio talvez diga mais, nas entrelinhas, do que o longo texto, assinalado embora por um saber sedutor em todos os sentidos. É extraída, a epígrafe, de outro radical inventor, o diabólico Lewis Carroll, em seu As Aventuras de Alice Através do Espelho: " - ?Sabia que eu sempre pensei que os unicórnios fossem monstros fabulosos? Nunca tinha visto um vivo antes!? - ?Bem, agora que nos vimos - respondeu o unicórnio -, eu acredito em você se você acreditar em mim. Não é um trato justo?"Precisa dizer mais, senhores, sobre os fundamentos mesmo da literatura? De tudo o que seja muito mais "recontar" do que "contar" histórias? Pois, evocando outra vez Borges, não passamos de diluidores de histórias alheias, de tudo o que nos antecedeu. Quem leu Proust (e o próprio Proust face à sua leitura da tradição...) leu todas as memórias passadas já escritas ou, o que é mais desconcertante, todas as memórias futuras que ainda hão de se escrever sobre novos tempos desde já para sempre perdidos... Perdidos? Nem tanto, se os conserva a magia da transcendência literária, como um documento vivo da realidade, por "delirante" seja a verdade dita através da invenção.Daí ao Dom Quixote que, sem erro, continua sendo o mais moderno romance já escrito pelo homem, "paraliteratura" em radical e estrito senso, a matar de inveja vanguardeiros de todos os quilates, seguem os ensaios, passando pelos desdobramentos do "duplo" em literatura - do Gilgamesh e seu amado Enkidu, e do Dr. Jekil e Mr. Hyde, a Bouvard e Pécuchet; dos mitos relidos por Kafka até a bíblica Torre de Babel quando os homens ousaram "destronar" Deus e "conquistar" (pelas armas?) o Paraíso, até o megacomputador Hal, de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, Alberto Manguel revisita o percurso da História das histórias humanas - com rara argúcia e invejável saber enciclopédico. A destacar sobretudo a generosidade com que nos reconta, ele mesmo, o já contado, e investe no futuro com uma audácia e franqueza poucas vezes vistas no ensaísmo moderno.Na longa conferência que encerra o livro, o estudioso argentino-canadense não se furta a denunciar o mercantilismo em que se converteu a arte de contar histórias neste tumultuado e tumultuário início de novo milênio. E corajosamente denuncia as grandes editoras de hoje a soldo da enganação e do engodo; do jogo vil que empreendem em conluio com livreiros e distribuidores.O resultado, senhores, está aí, e só não vê quem não quer: romances padrão, reescritos em parte ou no todo por editores gananciosos, redes de livrarias que alugam vitrines, mexericos pop-biográficos, os usos e abusos da paranóia urbana convertida em narrativas mais policialescas que "policiais" na velha tradição detetivesca, livros de auto-ajuda ancorados em filhos com Down e mães com Alzheimer, dissimulados em literatura de repertório.Sem uma reação, afirmativa, contra o descalabro, corremos o risco de não mais ouvir ou contar histórias. Baixo todas as conseqüências daí advindas: solidão e esquizofrenia; blindados exotismos e cidades sitiadas pela ausência do tráfico da inextricável identificação entre iguais com que, humanos, somos levados a permanecer juntos. E só as histórias verdadeiras, sabemos, alcançam pôr no peito de um homem a humanidade inteira. Wilson Bueno, escritor, é autor, entre outros, do livro Cachorros do CéuA Cidade das PalavrasAlberto ManguelTradução de Samuel Titan Jr.Cia. das Letras, 152 págs., R$ 34

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