O fator humano

Em 1970, depois de oito anos fora do Brasil, João Gilberto voltou ao Rio de Janeiro para (não) fazer um show no Canecão. E aceitou dar uma entrevista para a TV Globo. Jovem repórter, fui designado para entrevistá-lo. Nesse tempo, as reportagens dos telejornais ainda eram feitas em película, naturalmente em preto e branco. E dada a importância da matéria, que entraria no Jornal Nacional, me acompanhava o melhor cinegrafista da casa.Às 5 da tarde, começamos a entrevista, com João muito simpático e à vontade, feliz por estar de novo no Brasil, "respondendo" daquele seu jeito não muito loquaz, mas sempre divertido e inteligente. Rodamos dez minutos preciosos e corremos para a emissora, de posse da única entrevista jamais dada por João Gilberto a uma televisão.Fiquei na porta do laboratório, esperando o filme ser revelado. Para ver e crer no milagre. Meia hora depois, o laboratorista me entregou um rolo de 200 metros de celuloide sem qualquer imagem ou som gravados: o filme havia velado.Em 1993, gravamos o programa de estreia do Manhattan Connection em um estúdio high tech de Nova York, com uma equipe técnica toda de americanos. Quando terminamos a gravação, depois de acalorados debates, o diretor disse pelo interfone que lamentava muito, mas alguém errara o botão e nada fora gravado. Pensamos que era um daqueles practical jokes sem graça que americanos adoram. Mas era verdade. Como gravar de novo um programa de debates ? Fomos salvos por Paulo Francis, que, com dureza germânica, mandou recomeçar imediatamente. E, por incrível que pareça, talvez porque já estivéssemos aquecidos, foi até mais animado do que o perdido.No ano passado, num superestúdio da TV Globo, com 13 câmeras digitais rodando simultaneamente, gravamos uma hora de entrevista com Roberto Carlos e Caetano Veloso, tudo muito informal, cantarolando músicas, como uma reunião de velhos amigos. Mas, surpresa: só uma câmera havia gravado. O diretor Roberto Talma manteve a calma, Caetano e Roberto, em silêncio, voltaram para os camarins, meia hora depois recomeçamos. E saiu melhor do que a primeira.

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