O fascínio de Van Gogh pela noite

Mostra em Nova York revela esforço do pintor para dar cores ao período noturno

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 00h00

Um ano antes de acabar com a própria vida, Van Gogh (1853- 1890) pintou A Noite Estrelada, um dos quadros mais famosos a respeito daquelas horas entre o crepúsculo e a madrugada. A tela, que pertence ao Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, deu origem à exposição Van Gogh and the Colors of the Night, que o museu exibe até 5 de janeiro. É a primeira mostra que focaliza o quanto o pintor holandês, um homem da noite, refletiu sobre este tema. Ele já o representava desde antes de se considerar artista e o retomou várias vezes durante os dez anos de sua carreira.Marcada por obras-primas como Os Comedores de Batata, O Semeador, A Cadeira de Gauguin e A Noite Estrelada sobre o Ródano, Van Gogh and the Colors of the Night faz parte de uma série de mostras relativamente pequenas, mas surpreendentes e bem-sucedidas, que o MoMA iniciou, há dois anos, explorando temas abordados por um artista a partir de uma de suas obras mais conhecidas. A exposição tem 23 pinturas e 10 trabalhos sobre papel que demonstram a fascinação de Van Gogh pela noite e pontuam todos os períodos da carreira dele.Joachim Pissarro, curador do Departamento de Pintura e Escultura do MoMA, que organizou a mostra, dedicou quatro anos recolhendo informações e peças para montá-la. A maior parte das obras e dos documentos pertence ao Museu Van Gogh de Amsterdã, para onde a exposição vai em fevereiro do ano que vem.Antes de se definir como artista, em 1880, Van Gogh trabalhou como marchand, professor primário e evangelizador. Embora produzisse alguns desenhos nessa época, achava que eles eram só uma distração para seu trabalho. Numa vitrine à entrada da primeira galeria estão alguns desses desenhos, como a primeira representação de um estabelecimento noturno criada por ele, O ?Au Charbonnage? Café, feita em 1878, quando ele vivia na Bélgica.Fluente em francês, inglês e alemão, além do holandês, Van Gogh era um grande leitor e encontrou na literatura suas principais referências sobre a noite. Uma das salas da exposição abriga exemplares de livros que o inspiraram, como Une Page d?Amour (1883), de Emile Zola, L?Anné Terrible (1874), de Victor Hugo, e What the Moon Saw: And Other Tales (1866), de Christian Andersen.Pissarro agrupou os noturnos de Van Gogh em paisagens, cenas do dia-a-dia de lavradores, plantações de trigo e semeadores, além de visões poéticas do pintor sobre a noite no campo e na cidade. Na primeira seção, já é clara a diferença entre o antes e o depois de ele ter se mudado para Paris, em 1886. Os tons são sombrios nos desenhos e óleos, feitos entre 1883 e 1885, mostrando a casa pastoral do pai dele, um ministro da igreja reformista, em Nuenen, ou casebres e estradas daquela região. Depois de ele absorver as vibrações das cores de Monet, Cézanne, Renoir, Degas e outros do mesmo quilate, telas como Pôr-do-Sol em Montmartre, de 1887, começam a ganhar tons brilhantes."O interessante é que, muito rapidamente, ele sai de Paris e segue adiante, tentando um caminho novo, próprio e radical", observa Pissarro. Van Gogh seguiu a tradição de pintar paisagens durante os dez anos de sua carreira, enquanto desenvolvia seu estilo inconfundível de pinceladas paralelas e grossas de tinta.Entre 1883 e 1885, quando ainda morava com os pais, em Brabant, ele produziu várias pinturas e desenhos descrevendo a vida simples dos lavradores de lá. Entre esses trabalhos se destaca Os Comedores de Batata, de 1885. A cena da família fazendo sua refeição à luz de uma pequena lamparina era considerada pelo próprio pintor como um de seus melhores trabalhos.Já em Arles, no sul da França, para onde se mudou no começo de 1888, ele compôs uma série de variações sobre lavradores semeando ou colhendo trigo sob os efeitos da luz do sol nas primeiras ou nas últimas horas do dia. É possível acompanhar as preocupações dele em suas obras graças ao costume que ele tinha de fazer pequenos e detalhados esquetes dos quadros em que estava trabalhando em cartas para o irmão, Theo, e amigos. Entre duas versões a óleo e um desenho de O Semeador, todos de 1888, encontram-se páginas de cartas para Theo e para o pintor e escritor Emile Bernard reproduzindo aqueles trabalhos. A carta para Bernard inclui um esboço da composição com indicações das cores que ele estava usando no quadro. Não muito contente com o resultado, ele acrescentou mais cores contrastantes na tela final e foi adiante com o mesmo tema em novas variações.Em muitas cartas escritas em 1888, Van Gogh falava de como queria pintar uma noite cheia de estrelas. Achava que trabalhava melhor a partir da natureza, mas enfrentava o problema de como pintar na escuridão. Encontrou a solução colocando seu cavalete às margens do Ródano, na periferia de Arles. As luzes a gás da cidade lhe davam claridade suficiente para pintar.Para Pissarro, A Noite Estrelada - que Van Gogh pintou em 1889, quando estava internado no centro psiquiátrico de Saint-Paul de Mausole - é a culminação do intenso esforço do pintor para representar a escuridão por meio de cores. Nesse quadro ele também funde os significados espirituais e simbólicos que via na noite. "Nele Van Gogh aborda algumas das preocupações universais que todos nós temos", diz o curador. "Ele está pensando sobre seu próprio destino."No primeiro plano de A Noite Estrelada, o pintor silhuetou ciprestes nativos do sul da Europa, árvores encontradas em cemitérios e que simbolizam tristeza e morte. Esta, para ele, era algo como um trem para as estrelas. "Por que os pontos de luz no firmamento nos devem ser menos acessíveis do que os pontos pretos sobre o mapa da França?", escreveu ele. "Assim como tomamos o trem para Tarascon ou Rouen, tomamos a morte para chegar a uma estrela.""Era durante a noite que as experiências de Van Gogh com imaginação, memória e observação iam mais longe", diz Pissarro. "A grande surpresa é que a preocupação dele com a noite, tanto real como imaginária, durou toda sua vida."

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