O fardo de uma cultura em agonia

De Verdade, de Sándor Márai, mergulha na angústia da burguesia húngara no entreguerras, presa entre tradição e violência

Luis S. Krausz, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

O que é, afinal, cultura, e para que precisamos dela? Essa pergunta perpassa todas as reflexões e lembranças de que é composto o romance De Verdade, do húngaro Sándor Márai (1900- 1989), que acaba de chegar ao leitor de língua portuguesa, em excelente tradução de Paulo Schiller, completando uma série de que já fazem parte As Brasas, Divórcio em Buda, Confissões de Um Burguês, Rebeldes e O Legado de Eszter.Márai escreveu esse livro em seu exílio italiano, entre 1949 e 1978, complementando-o, nos Estados Unidos, em 1979. E o autor, evidentemente, está representado no livro - não apenas na figura de Lazar, um escritor que se exila na Itália -, mas também na de Péter, o descendente de uma família daquela burguesia húngara que emergiu no século 19, com as reformas políticas e econômicas implementadas pela monarquia habsburga, e que tomou o lugar da antiga aristocracia nesse singular universo cultural que foi o Império Austro-Húngaro.A sorte e o azar dessa burguesia foi que, incapaz de ou indisposta a produzir uma ideologia própria, ao contrário do que aconteceria, por exemplo, na Inglaterra e na França, tratou, sempre, de emular os valores da aristocracia, cuja posição política passou a ocupar. E dentre esses valores tinha lugar de destaque uma série de categorias metafísicas, de princípios éticos e de comportamento, de um sentido de dever e dignidade, que era a força aglutinadora de um império de muitas línguas e muitas culturas, e que perpassava todas as esferas de uma minuciosa burocracia de Estado - desde o Kaiser até o mais insignificante funcionário de uma agência de correios de cidade do interior -, transbordando dessa burocracia para todo o corpo de cidadãos. Os parâmetros imperiais impregnavam a sociedade como um todo, emprestavam-lhe um sentido e um sabor único. Criou-se, assim, uma cultura específica que, ao menos idealmente, tinha em vista um ecúmeno, não a espoliação indiscriminada, e que, portanto, estaria destinada a subsistir para sempre: uma cultura de ordem e de acolhimento, em que para tudo deveria haver um nome, um lugar, um nexo.O exercício de qualquer atividade, assim, tanto quanto o de uma função ou de uma posição hierárquica, representava um determinado estado, isto é, não só uma posição específica numa escala social rigorosamente sacramentada, mas um estado de espírito, consoante a concepção medieval de sociedade, que legitimava e explicava a existência de uma hierarquia, um sistema em que as coisas eram organizadas de acordo com sua sacralidade intrínseca. Nesse universo, que deveria corresponder a uma ordem transcendente, as diferentes funções e ocupações tornavam-se, antes de qualquer coisa, rituais, por meio dos quais eram conjuradas, de acordo com uma tradição, determinadas forças e determinadas energias. Tratava-se de imperar. Não de dominar.Ora, essa concepção de sociedade ruiu em 1918, deixando órfãos, viúvas e retalhos por toda a Europa Central. E a burguesia húngara do entreguerras - universo em que Márai mergulha nesse e em outros romances -, por falta de alternativa ou de idéia, seguiu celebrando os rituais da outra época, apegando-se aos seus cacos em total inconsciência, e talvez com a inocente fé de que os mesmos seriam capazes de conjurar, outra vez, ''a era dourada da segurança'', de que falava Stefan Zweig, esse outro grande nostálgico da cultura da velha Áustria-Hungria.O segredo do imperar, de que partilham os senhores descritos nesse romance, e nos de tantos outros dos contemporâneos de Márai, foi sepultado sob os escombros da 1ª Guerra. E o pouco que dele restou sucumbiu com a 2ª Guerra, o triunfo definitivo da dominação por meio da pura violência. Desprendido do tecido cultural que o sustentava, o estrato social de que trata Márai agonizava já desde 1918, como um iceberg gigantesco em águas mornas. Incapaz de desvincular-se da velha ordem, sem a qual não havia nexo para sua existência, e desprezando os lugares da era da dominação, restou-lhe o incômodo do exílio, o suicídio, ou ambos.Se a existência fora daquele mundo não fazia sentido para Márai e seus personagens, restou-lhe rememorá-lo, como a tantos outros escritores nascidos nesse meio antes dele, como, por exemplo, Joseph Roth, Robert Musil e Bruno Schulz. Porque para eles a face do século 20 é a voragem, a vulgaridade e a destruição, e sua epítome, em De Verdade, são tanto os exércitos russos que, em 1945, dão o tiro de misericórdia num mundo que recende às tradições do século 19 quanto a banalização argentária e ditatorial da sociedade de consumo que, desde então, se alastra pelo mundo.Para nossa sorte, Márai conseguiu encontrar em seus livros um lugar para as heranças inomináveis que carregava consigo, como um fardo invisível que ele mal conseguia suportar. Como diz a criada Judit, uma das personagens desse De Verdade: ''Quando os ricos de verdade são deixados nus em pêlo, eles conservam uma fortuna escondida que nenhuma força terrena consegue tirar deles...'' Mas Márai acabaria por sucumbir, sob o peso de tal fortuna, como Roth e Zweig antes dele, cientes de que sua cultura, agora, era cultura só para eles mesmos. Irremediavelmente estrangeiro, suicidou-se em San Diego, Califórnia, em 1989.Luis S. Krausz, doutor em Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo, é autor de As Musas: Poesia e Divindade na Grécia Arcaica (Edusp)

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