Luca Nichetto via The New York Times
Luca Nichetto via The New York Times

O famoso vidro de Murano passa por declínio que designers tentam reverter

A onda de peças únicas elaboradas em parceria com artesãos da ilha veneziana talvez consiga um novo olhar para os produtos

Ray Mark Rinaldi, The New York Times

10 de junho de 2022 | 20h01

O alto design pode reverter o declínio de Murano?

Poderia uma lâmpada transcendente, ou uma única taça de vinho revolucionária, ou uma fruteira criada na ilha italiana veneziana por um dos principais designers de hoje, restaurar a reputação desta capital da vidraria, cujo legado de artesanato data do final dos anos 1200, mas cuja relevância diminuiu em uma era de produtos baratos e produzidos em massa?

Talvez não seja apenas uma dessas coisas, dizem os designers e artistas internacionais que atualmente colaboram com os trabalhadores do vidro de Murano. E, falando de forma realista, reverter o destino de Murano seria uma tarefa monumental, especialmente neste momento crucial em que os altos preços do gás, causados pela guerra na Ucrânia, forçaram pequenas fábricas independentes a fechar seus fornos.

Mas talvez a onda de peças únicas que eles estão fazendo lado a lado com os artesãos de Murano - e exibindo em vitrines sofisticadas, como a da Milan Design Week - possa ajudar a criar um novo nicho para seus produtos , restaurar algum prestígio, trazer turistas de volta, até mesmo inspirar as gerações mais jovens de Murano a continuarem com os negócios da família.

Designers como Ini Archibong, um americano radicado na Suíça, que criou a mais recente versão de sua luminária Gaea Pendant na ilha, estão apresentando suas criações como exemplos de como os especialistas em vidro de Murano, famosos por sua extravagância, poderiam dedicar mais de suas habilidades técnicas para o desenvolvimento de produtos elegantes que são atualmente populares entre os consumidores de luxo.

“Uma pessoa vendo o potencial e acreditando nele e chamando a atenção para isso pode inspirar outra pessoa que pode inspirar outra pessoa”, ele disse, em uma videochamada de Murano.

A primeira de 10 edições limitadas da Gaea foi recentemente revelada na galeria milanesa Rossana Orlandi em uma exposição de produtos fabricados pela empresa de design Sé.

As novas peças atualizam o design original de 2018 da Archibong - uma graciosa lágrima de vidro suspensa em uma corda de contas irregulares. O designer a descreveu como “uma luminária de chão pendurada no teto”.

As novas luminárias são mais sofisticadas, disse Archibong. Ele cita os mestres do vidro por ajudá-lo a adicionar texturas intrincadas à superfície e fazer a transição da peça de vidro branco com uma camada adicional de cor para o vidro colorido real.

O vidro especializado feito por várias empresas na ilha está na raiz da reputação de Murano que vem de séculos, assim como as contribuições criativas dos artesãos, disse o fundador da Sé, Pavlo Schtakleff.

“Eles não são apenas fabricantes, são artistas”, ele disse. Eles “têm isso no sangue”.

Colaborações autênticas são exatamente o tipo de coisa que o designer Luca Nichetto, um dos defensores mais visíveis de Murano, acredita que poderia melhorar a reputação da ilha. Ele cresceu lá e começou a criar para a empresa de iluminação Foscarini, antes de projetar vários produtos para outras marcas globais e abrir um segundo estúdio na Suécia em 2011.

Ele está familiarizado com os problemas de Murano, como a concorrência de bugigangas de baixa qualidade importadas para a Itália e vendidas como “vidro de Murano” para os turistas, e um declínio no número de pessoas interessadas em colecionar vidro de arte como legado.

Depois, há uma escassez permanente de mão de obra qualificada que se tornou mais aguda nas últimas três décadas, quando os filhos dos mestres do vidro de Murano decidiram que não querem passar a vida como operários de fábrica. A fabricação de vidro é quente e fisicamente exigente, e o prestígio de fazer o trabalho desapareceu junto com a posição de Murano.

Os eventos atuais agravaram uma situação econômica já ruim. As fábricas foram forçadas a fechar durante a pandemia de coronavírus, e o aumento dos preços do gás impediu muitas de reabrir. A Itália obtém grande parte de seu gás natural da Rússia, e os apertos na oferta elevaram os preços além do que as pequenas operações familiares podem pagar.

“Eles passaram de 10.000 euros (cerca de US$ 10.700) por mês para uma conta de gás de 70.000 euros por mês, e para uma pequena fábrica isso não é nada sustentável”, disse Nichetto. “Então o que eles fazem é fechar e dizer que vão esperar o preço do gás cair, mas eles têm um tempo limitado para sobreviver.”

Todos esses problemas tornam improvável que Murano volte a fabricar vidro na quantidade que fazia nos séculos anteriores, disse Nichetto. Mas ele espera que um apelo aos entusiastas do design de ponta evite um colapso total.

Ele tem estado na vanguarda de um movimento que incentiva parcerias criativas. Em setembro, ele organizou uma exposição em Veneza chamada Empathic - Discovering a Glass Legacy (Empático - Descobrindo um Legado do Vidro) com colaborações entre trabalhadores de Murano e designers de ponta como Marc Thorpe, Noé Duchaufour-Lawrance e Elena Salmistraro.

Ele também está entre as estrelas de uma exposição atual em Veneza, Forme del Bere (Formas de Beber), apresentando versões atualizadas de vasos clássicos de Murano.

Se o vidro genuíno de Murano não consegue atrair as massas, talvez possa atrair consumidores abastados que viajam para Veneza, propõe Nichetto. Se seu status fosse restaurado, poderia atrair os jovens de volta à indústria da mesma forma que os movimentos de comida artesanal atraíram as novas gerações para a fabricação de cerveja e pão à moda antiga.

“Ainda acredito que há uma maneira de reinventar Murano”, ele disse./TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

 


 

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