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O pianista Rudolf Buchbinder toca peças de Haydn e Mozart na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2009 | 00h00

"Essas obras são imortais. Não se trata apenas de pensar o que fizemos com elas nos últimos cem anos mas, também, o que faremos nos próximos cem." O pianista alemão Rudolf Buchbinder está falando de Haydn, Mozart e Beethoven, a "trindade da tradição musical vienense". Hoje e amanhã, ele faz concertos na Sala São Paulo dedicados aos dois primeiros, ao lado da Orquestra de Câmara de Zurique. "Essa música permite à sociedade que faça uma conexão interessante entre seu passado, presente e futuro", completa.Hoje, o programa tem o Concerto para Piano em Ré Maior, de Haydn, e os concertos nº 9 e nº 12 de Mozart, compositor que aparece sozinho no programa de amanhã, com os concertos nº 14, nº 17 e nº 27. Haydn, diz Buchbinder, é o pai de todos. Ao longo da semana passada, no Rio, a programação do festival Folle Journée foi toda dedicada a Mozart; já ontem à tarde, na Igreja da Candelária, foi a vez de Haydn, com a Sinfônica Brasileira interpretando A Criação, oratório em que o compositor narra a criação do mundo. Não foi também Haydn uma espécie de criador ele mesmo, inaugurando formas e estilos que marcariam de maneira tão forte as músicas do século seguinte e, em especial, a obra de Mozart e Beethoven? "Quando resolvi gravar toda a sua obra para piano, fui descobrindo um tesouro atrás do outro e compreendendo Mozart e Beethoven que, afinal, dedicou suas três primeiras sonatas a ele", diz Buchbinder. "Sua música nos ensina muito sobre disciplina, sobre articulação, sobre técnica. Qualquer orquestra do mundo deveria interpretar Haydn pelo menos duas vezes por ano. É saudável", completa.E quais os critérios que guiaram sua escolha dos concertos para piano de Mozart? "Sempre que me perguntam se, ao programar uma série de concertos, eu escolho as minhas peças favoritas, respondo que minha obra preferida é a que acabei de tocar ou estou tocando. Neste caso, como estou viajando com uma orquestra de câmara, precisei procurar peças cuja instrumentação se adequava a este tipo de formação menor. Já com relação a Haydn, este sim é um dos meus concertos prediletos e, curiosamente, um pouco subestimado pelos intérpretes. Se tivesse dez minutos a mais de duração, tenho certeza de que seria um dos pilares do repertório de qualquer pianista."Com 5 anos de idade, Buchbinder foi o mais jovem aluno a ser admitido na Musik Hochschule de Viena. O início de sua carreira foi dedicado quase que exclusivamente à música de câmara, mas ele logo passou a ser convidado como solista das principais orquestras do mundo. Acaba de chegar de São Petersburgo, onde esteve como convidado da Filarmônica de Munique, tocando o Concerto para Piano e Orquestra, de Grieg. Sua discografia conta com mais de cem discos, entre eles integrais dos concertos e sonatas de Mozart e Beethoven, da obra para piano de Haydn, entre outros autores.Ele insiste na universalidade dessa música e no poder que tem de atravessar os séculos mantendo sua força. "Não dá para matar a importância que esses autores têm. Eu costumo dizer que um dos aspectos mais fascinantes é que não há uma interpretação autêntica. Você pode pegar dez versões da Quinta de Beethoven, as dez serão fantásticas. Você pode gostar mais de uma, mas é possível que todas elas sejam coerentes e interessantes. Isso é fascinante."E como Buchbinder sente a maneira como sua interpretação desses autores tem se transformado ao longo dos anos? Já são, afinal, mais de quatro décadas de carreira. "Hove muitas mudanças, isso é certo. Mas nos últimos anos, comecei a buscar e colecionar as primeiras edições dessas obras, ainda manuscritas. Você pode pensar que, ao me aproximar da escrita do compositor, minha interpretação tenha ficado mais rígida. Mas o curioso é que ocorre exatamente o contrário. Quanto mais eu sei e aprendo, mais livre eu me sinto na hora de tocar. É interessante descobrir como o conhecimento é libertador. E isso não se presta apenas a esses compositores. Tenho sentido isso também ao tocar autores como Gershwin ou o próprio Grieg que fiz agora na Rússia." ServiçoRudolf Buchbinder. Sala São Paulo (1.437 lugs.). Praça Julio Prestes, s/n.º, 3815-6377. Hoje e amanhã, 21h. R$ 80 a R$ 200

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