O estonteante céu de Caraíva

Imagine um céu absurdamente estrelado. Um planetário. Milhões de estrelas piscando num fundo azul-marinho sobre um vilarejo na penumbra. Pense numa visão impactante, daquelas que deixam o sujeito embasbacado - algo como a nave-mãe de Spielberg em Contatos Imediatos de Terceiro Grau -, e mesmo assim você só terá uma pálida idéia do que é avistar Caraíva à noite, a bordo de uma canoa. O que é aquilo? Só vendo para crer. Maior bem do vilarejo de 470 anos - o mais antigo do Brasil -, o céu continua a ser apreciado em todo seu esplendor apesar da chegada da energia elétrica, há pouco mais de um ano. Como a fiação é subterrânea e não há postes de iluminação pública, o vilarejo permanece apagadinho, sem ofuscar o brilho das estrelas. Sem os geradores, ficou mais silenciosa. Pode-se dormir ouvindo as ondas quebrar na praia e acordar com o canto dos pássaros. Ou seja, o que era bom ficou melhor."A luz trouxe o conforto de um ventilador, um ar-condicionado, um banho quente...", diz o guia de turismo Marcelo de Barros, conhecido pelo apelido de Barra. Paulista de 43 anos, há 13 ele ancorou em Caraíva e montou a primeira agência especializada em ecoturismo do lugar, a Comando Verde Ecoturismo e Aventura (barra_caraíva@hotmail.com). Antes, esses eram luxos impensáveis no vilarejo considerado pela Unesco Patrimônio da Humanidade. Menos para quem dispunha de energia solar ou potentes geradores.Chegar lá não é fácil - muitos atolam na areia fofa das estradas que partem de Trancoso e Monte Pascoal, sobretudo em época de chuva. Graças a isso, Caraíva mantém-se do jeitinho de sempre, mágica e intocada, com suas ruas de areia onde não entram carros nem motos, casas coloridas sobre palafitas na beira do rio, manguezais, dunas e aquela vidinha mansa. Isolada de um lado pelo rio, de outro pelo mar e de outro pela reserva indígena pataxó de Barra Velha, é quase uma ilha, onde só se chega de barco - o carro fica guardado em um estacionamento, do outro lado do rio. A hora é esta para visitar o vilarejo. Primavera, sol forte mas não demais, chuva só para refrescar, muita flor. Nesta época, o ar fica perfumado com o aroma de mangabas e cajus, tantos que forram o chão. "É quando os pássaros mais cantam, acasalam...", conta Barra, apaixonado. E o que se faz em Caraíva além de ouvir passarinhos e contar estrelas cadentes até ficar de torcicolo? Só delícias como passear de canoa na lua cheia, mover-se entre a água doce do rio e a salgada do mar, e muitas caminhadas. Pernas para que te quero? Dá para conhecer o vilarejo todo andando. Cansou? Descanse à sombra de uma amendoeira, não sem razão chamada de chapéu de couro ou de sol. Depois das 10 horas já não dá para caminhar descalço porque a areia fica pelando. Então, aproveite para descer o Rio Caraíva de bóia, docemente levado pela correnteza e apreciando a mata, o mangue, as casinhas. Também se pode fazer o percurso de caiaque, canoa ou a nado (que é muito bom!) e assim, sem esforço, chegar ao mar. Não espere nenhuma pororoca. A transição é suave, morna, gostosa - ora doce, ora salgada. Que sacrifício!Apesar de rústica, Caraíva recebe bem, e com conforto, do mochileiro ao turista mais exigente. Uma refeição com arroz, feijão, salada e peixe frito fresquinho custa R$ 15, no máximo. Mas também se pode comer lagosta à luz de velas e dormir em camas enormes com lençóis de não sei quantos fios de algodão.As praias ao norte e ao sul da vila revelam as diferenças: de um lado, Curuípe, pólo do turismo rústico-chique. Do outro, Corumbau, reserva extrativista que parece parada no tempo. Ambas acessíveis por trilhas ou de barco. No trajeto para Curuípe, um refresco nas águas das lagoas que ficam no meio do caminho. No meio da trilha para Corumbau pode-se visitar a aldeia de Barra Velha. Na volta da praia e das trilhas, ao entardecer, a pedida é chegar no Varandão, bar-restaurante com belo visual da Barra de Caraíva, comer pastel de camarão no Boteco do Pará, ouvir boa música ao vivo no Bar do Porto, jantar no Brilho do Mar e curtir a noite na Pousada da Lagoa. À noite, na temporada, tem forró. Se não, uma fogueira, um cantinho e um violão na praia sempre rolam."É, Caraíva ainda não deu o boom", lamenta Barra. Ele e outros comerciantes anseiam por hordas de turistas. "A gente precisa comer e pagar contas o ano todo." O vilarejo fica cheio uma semana antes do Natal e até depois do carnaval. E, claro, lota no réveillon. Depois disso, fica assim, um sossego só. Se você ainda não foi, agilize, como se diz na Bahia. Todo mundo sabe o que acontece depois do boom.

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