O espírito do subúrbio que não sai da gente visita o terreiro

Dorina lança Samba de Fé, com cinco obras inéditas, no qual homenageia o sincretismo religioso e o jeito suburbano de ser

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

15 de janeiro de 2009 | 00h00

Samba de Fé, o novo CD de Dorina, pode sugerir redundância. É inevitável associar as origens do samba à batucada religiosa dos escravos africanos. Mas a redundância pode perder sua força, quando se sabe que os terreiros estão cada vez mais distantes do centro do Rio, como se precisassem se esconder. "Os evangélicos avançaram, e os terreiros ficaram mais interiorizados, indo para a Baixada Fluminense", diz Dorina. Apesar das mudanças, no subúrbio do Rio ainda se dá o sincretismo religioso, segundo a sambista de Irajá. Como dizia Luiz Carlos da Vila, a quem Samba de Fé é dedicado e morto em outubro do ano passado, "o suburbano tem um jeito próprio de cantar e viver".É esse jeito de ser que dá alma ao quarto CD de Dorina, que se apresenta no Carioca da Gema (21 2221-0043), hoje, às 23 h, com o grupo Samba com Atitude, que a acompanha em Samba de Fé. "Não existe o pulo do gato, é aquela coisa do quintal", ela diz. Em outras palavras, Dorina diz que seu disco está imbuído do espírito suburbano, no qual se percebe que os laços de solidariedade não se romperam, sendo o atual responsável por guardar o samba, nascido no Centro no começo do século passado e renovado pela turma do Cacique de Ramos nos anos 1980."O Luiz Carlos da Vila me ligava, às 8h30 da manhã, para perguntar se eu ia fazer a unha e a sobrancelha lá na Vila da Penha", diz Dorina, que atualmente mora em Santa Teresa. Segundo a sambista, no subúrbio as pessoas se conhecem pelo nome. "De repente, você está lá, encontra um conhecido que prepara um almoço, tem cerveja, aí vem o samba...", ela diz. Por isso o partido-alto, modalidade que associa batucada a bebida, comida, quintal e espontaneidade, aparece nos outros discos de Dorina: Eu Canto Samba, Samba.Com e Sambas de Almir.Com as 13 faixas de Samba de Fé não seria diferente. Ele traz cinco inéditas - Que Batuque É Esse (Moacyr Luz e Sereno), Obaxirê (Toninho Gerais e Roque Ferreira), Sonhava (Riko Dorilêo e Luiz Carlos da Vila), Na Hora de Voltar (Adilson Galvão e Adauto Magalha) e Lindo Passado de Glória (Mauro Diniz), homenagem à Velha Guarda da Portela, escola de Dorina, apesar de a mãe ser Império Serrano. Nei Lopes e Wilson Moreira aparecem com Fidelidade Partidária; Arlindo Cruz, Sombrinha e Sereno, com Banho de Fé; Candeia e Vandinho, com Zé Tambozeiro; Jorge Aragão, Sombrinha e Jotabê, com Pedaço de Ilusão.Paulão 7 Cordas, Rildo Hora, Roberto Chama, Raphael Amphilóphio e Mauro Diniz são os responsáveis pelos arranjos. Beth Carvalho faz uma participação em A Padroeira (Rachado e Vaguinho), homenagem a Nossa Senhora da Penha. Com a morte de Luiz Carlos da Vila, o grupo Suburbanistas, formado por ele, Mauro Diniz e Dorina, chegou ao fim. Mas, se as pessoas saem do subúrbio, o subúrbio não sai delas, como mostra Dorina em Samba de Fé.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.