O espírito da Máfia cruza hemisférios

Segundo o autor de Gomorra, clãs da Camorra têm os pés fincados no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

Na noite fria de 25 de novembro, na Real Academia Sueca, Roberto Saviano, o autor de Gomorra, foi aplaudido de pé por 400 pessoas, provocando comoção ao dizer que "a palavra dá medo só quando supera a linha de sombra". Abraçado ao italiano, Salman Rushdie, outro ameaçado, dava força ao companheiro de "fatwa" para suportar o peso de sua condenação à morte, ele que teve há 20 anos a cabeça colocada a prêmio por fundamentalistas islâmicos por Os Versos Satânicos.Ao evocar a "linha de sombra" do célebre livro de Joseph Conrad, Saviano, nascido em Nápoles há 29 anos, via-se como o jovem nunca nomeado de sua obra The Shadow Line, cruzando a linha que separa dois universos, o Ocidente e Oriente. Em suma: com a coragem de um jovem obrigado a assumir o posto de comando de sua geração. Só que seu conflito não era apenas literário. Saviano cruzou a "linha de sombra" para enfrentar carniceiros da pior espécie, capazes de derreter corpos de inimigos em tanques de ácido, usar viciados como cobaias de drogas e convocar crianças para queimar lixo tóxico.A menção de Saviano a Conrad não foi gratuita. O horror que Gomorra desperta não é só o de uma Itália atrasada e povoada por famílias de mafiosos violentos, vingativos. É o de uma Europa dominada por cartéis do crime organizado, que investem tanto na bolsa de Londres, quinto maior mercado consumidor de cocaína do mundo, como nos depósitos clandestinos de lixo tóxico chineses e italianos. O crime transnacional passa, sim, pelo porto de Nápoles dos camorristas, mas não se restringe ao tráfico de drogas ou contrabando de mercadorias, segundo Saviano. É, portanto, improvável que a Itália possa resolver sem ajuda internacional o problema dos mafiosos . A Camorra colocou os pés na China imediatamente após a queda da Cortina de Ferro e o acordo feito com os chineses foi selado a sangue.Em Nápoles, de acordo com Saviano, são descarregadas quase exclusivamente mercadorias chinesas: 1,6 milhão de toneladas. O registrado. O resto, diz ele, "passa sem deixar rastro". E no resto podem estar 20% de toda a produção têxtil da China. As fábricas chinesas na China, diz ele, estavam fazendo concorrência às fábricas chinesas na Itália e havia um único modo de elas se salvarem: transformando operários em experts em alta-costura. Saviano descreve como um simples alfaiate italiano ligado à Camorra, que assinou um terninho usado por Angelina Jolie na noite do Oscar, deu aulas de como desenhar um modelo de grife (por meio de um telão) a centenas de operários chineses de fábricas clandestinas.Saviano diz que os negócios se espalharam pelo outro hemisfério, chegando a São Paulo e Rio de Janeiro, onde os ?secondiglianesi? (cartel camorrístico que reúne diversas famílias) dominariam o mercado de roupas. E por que as grifes de moda italiana não protestam? Porque denunciar significaria, segundo o autor, "renunciar para sempre à mão-de-obra barata que utilizam na Campânia e em Puglia", dominadas pelos camorristas. Os clãs, além disso, dificultariam as relações com as fábricas do Leste europeu e do Oriente. A Camorra, garante, "é a maior organização criminosa da Europa". Para cada siciliano mafioso há cinco da Campânia. E eles não precisam de políticos, como os mafiosos sicilianos. Eles é que precisam da Camorra. Os clãs da Camorra chegam ao poder, segundo ele, "pela potência de seus negócios". E esses negócios incluem, claro, tráfico de drogas, hoje feito com o consórcio de aposentados, que compram lotes de coca para revender. O pior, porém, começa a aparecer lá pelo quarto capítulo, em que os clãs de Secondigliano, para testar suas misturas, usam heroinômanos como cobaias, atraindo-os com preços baixos. Desesperados, os "visitors", como são chamados, topam tudo. Até mesmo morrer. Aliás, como os milhares de jovens recrutados pela Camorra que, iludidos, sonham ficar ricos e acabam vítimas dos piores pesadelos na terra do perseguido Saviano. TrechoPara muitas mulheres, casar-se com um camorrista é como receber uma herança, ou significa um capital conquistado. Se destino e capacidade o permitirem, aquele capital frutificará, e as mulheres se tornarão empresárias, dirigentes, verdadeiros generais com um poder ilimitado. Se tudo for mal, permanecerão sozinhas, em salas de espera de prisões ou concorrendo com as eslavas, para assim poderem pagar os advogados e dar de comer aos filhos - isso quando o clã perde o poder...

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