O espetáculo da vida, por José Eduardo Agualusa

Escritor angolano diz que autora seduz e perturba leitores ao se expor com impressionante coragem

José Eduardo Agualusa, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2008 | 00h00

A vida a todos inventa, mas inventa a uns melhor do que a outros. Maitê Proença, há que reconhecer, foi muito bem inventada. Se existem vidas que desmoralizam a ficção, que a tornam ociosa e ridiculamente frágil - esta é uma delas. A matéria de que se faz este livro é pura vida: a vida na sua insensatez arrebatadora, no fulgor do seu mistério - risos, onde se esperava o choro, amor onde era para ser ódio, ódio onde devia estar o amor. Um "relato sobre contradições" no qual Maitê expõe com impressionante coragem a tragédia que lhe destruiu a infância, a sua perplexidade e o seu dividido coração de menina. É com a mesma coragem, com a mesma sinceridade, que reflete sobre a condição de atriz e de celebridade, sobre sexo, drogas e maturidade. Uma Vida Inventada desafia todas as classificações: podemos considerá-lo um registro autobiográfico? Sim, sem dúvida, mas também uma recolha de crônicas ou de apontamentos, diário de viagens, e ainda um quase romance, que aqui e ali interrompe o fluxo da memória, e preenche os espaços vazios - aquilo que não poderia ser dito de outra forma - num puzzle perturbador, e que só ao final se resolve. "Há nos meus interiores um entusiasmo indelével que me move" - escreve Maitê. É com este entusiasmo que ela arrasta os leitores, desde a primeira frase, dando-nos a ver a alma que se esconde por detrás do rosto que o Brasil inteiro conhece e admira: "Um mês depois de sumir o pai voltou, num susto, como havia partido. O abatimento em seu corpo era indisfarçável. Não que tentasse... Emagrecera de dar aflição e fumava mais do que antes com o olhar perdido nos fundos do pensamento. Que idéias marejavam aqueles olhos de louco?" Maitê conduz-nos pelos primeiros anos da sua vida, educada numa escola americana, em Campinas - a única menina brasileira! - até a descoberta do sexo, e ao mesmo tempo do Brasil; do amor e da maternidade. Este é o jogo da verdade. Nada se ilude, nada se esconde. Revela-nos a gravidez adolescente, que acontece enquanto desce o Velho Chico. E, finalmente, o encontro com a arte de representar: "Não sei o que faço aqui. Com quem estou falando? Por que essas revelações? Isso de passar a vida interpretando textos de outras criaturas vai abafando a própria voz." Ou ainda, como acrescenta adiante: "Às vezes não sei bem se aquilo que penso é o meu próprio pensamento e se o que desejo é meu querer ou de outro."Há ainda as pequenas anedotas com outros atores, figuras públicas, companheiros e amigos, que servem para melhor ilustrar um pensamento. Tudo isto servido por uma linguagem elegante, um constante bom humor e auto-ironia, uma inteligência capaz de enxergar e reconhecer os próprios erros. Maitê revela-se com este livro um personagem que nenhum escritor desdenharia. Infelizmente (para eles) ela driblou-os a todos, com a mesma energia com que driblou o destino, e veio em pessoa contar-nos a sua história. Uma grande história. José Eduardo Agualusa é escritor angolano, autor de Nação Crioula, entre outros

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