O escritor urso e o homem febril

George Steiner revela um Tolstói capaz de duvidar da própria mortalidade e um Dostoiévski que extraiu força da doença

Paulo Bentancur, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Poucos críticos vivos, hoje, podem se comparar, em erudição, em rigor e vigor ao escrever suas análises, em ousadia e método obsessivo na seleção e execução de um projeto estético, com o francês George Steiner. Em fôlego, só um Harold Bloom. Mas Steiner é bem menos sanguíneo e mais linfático que o shakespeariano Bloom. E, paradoxalmente, isto cai como uma luva para seu livro de estréia (lançado em 1959 e só agora no Brasil) e, ao mesmo tempo, sua obra magna, Tolstói ou Dostoiévski (tradução de Isa Kopelman, exceto os capítulos 1 e 2, traduzidos por Luana Chnaiderman de Almeida). Steiner repensa, acertadamente, o modo de lermos a ficção, o modo de esta ser construída, o que parece mas não é literatura, as relações entre obra e artista e a paralela independência de ambas. Tudo isso para começar. E só na introdução. Um livro de crítica que deve ocupar em qualquer estante o mesmo lugar de destaque que, em ficção, a obra de Tolstói e a de Dostoiévski devem ocupar também.Tudo aquilo que já pensamos acerca desses dois gigantes - a começar que são, não metaforicamente apenas, titãs - é levado às últimas conseqüências. Steiner descreve um conde Leon Tolstói como um homem quase da altura e da espessura de uma porta, capaz de arrastar seguidores, pensando como quem age, mais do que pensa, sua sociedade; nos aspectos mais cruciais, social, política, cultural, religiosamente. Mas tudo isso sob um prisma no qual a justiça deve prevalecer, e, se não prevalece (e muitas vezes não prevalece mesmo), a tragédia, o escândalo, a dor se instauram e personagens e leitores acusam o golpe com uma intensidade inesquecíveis. O Deus de Tolstói é um ser do qual se espera (e Ele se esmera para) o melhor.A morte é algo inconcebível e, quando ocorre, a ressurreição entra em cena como uma hipótese a ser considerada. De novo não apenas como metáfora, mas como uma forma de força, de ação, de fato - ainda que deslocado, transformado, porém resposta positiva ao que a vida sem esse Deus presente seria feita de essência inútil e sem sentido.Esse homem que age como um urso, esse escritor cujo projeto estético exige extensões gigantescas como o país natal (a Rússia sem-fim, de desgraças sem-fim mas de possibilidades sem-fim, sobretudo as da ação, as da política), não à toa fugiu de casa com mais de 80 anos e morreu congelado numa estação de trem. É tido como uma entidade, mais que um artista, e cultuam-no pessoas capazes de andarem nuas pela neve e agitarem para que todos vejam a ameaça de corações e mentes abertas para a necessidade de um novo tempo.Há, no mesmo país infindo, na mesma época convulsa, um outro homem, também escritor, sem seguidores como Tolstói, capaz de ações comezinhas como viciar-se em jogatinas, com uma vida precária (o conde tem posses além da energia inumana), sofrendo de epilepsia, uma doença com causas que Steiner aponta mal interpretadas por gente como Freud ou Thomas Mann. Esse homem é Dostoiévski, outro gigante, mas não um urso. Um homem febril, um servo de Deus que luta contra as contradições desse Deus invisível e, simultaneamente, autor de obras que desautorizam a natureza sublime do ser divino no qual o escritor acredita. Dostoiévski é um místico sem luz alguma. Busca na penumbra o coração agitado e imponderável desse Deus que ele vê à deriva e mistura essa busca nos conflitos políticos nos quais os protagonistas se perdem, se digladiam, e para o qual apelam em lugares que nunca chamaríamos de templos.Steiner repassa a obra de contemporâneos. Henry James, Flaubert (indispensáveis as referências cruzadas entre Madame Bovary e Anna Karenina), Balzac (que não convence), Stendhal (que Tolstói ama, como a Shakespeare), o titânico retrato intentado em Moby Dick e meia dúzia de outros títulos igualmente ambiciosos (que pecam, e muito, pelo excesso, onde as digressões, que em Tolstói funcionam e em Dostoiévski tornam-se oração ou sonho místico, ascese), os estilos de época como o Naturalismo subserviente, previsível e esvaziador de Zola.Um gigante, esse baixinho Steiner. Sem a estatura física nem a resistência orgânica de um Leon Tolstói, que ele incorpora em agudas observações em obras capitais, Guerra e Paz (põe Napoleão em cena sem falsificá-lo nem lhe entregar o romance), Ressurreição, Anna Karenina, A Morte de Ivan Ilitch; e os eleitos de Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, Os Demônios, O Idiota (nestes dois encontramos uma quase inesperada valorização, considerando-se que o primeiro e o próximo já têm consagração plena) e Os Irmãos Karamazov.Steiner abre seu livro afirmando que uma obra de crítica é uma dívida de amor. No caso, amor duplo. E antagônico. À altura de dois romancistas que mal se conheceram pessoalmente, mas que se leram e não puderam deixar de espantar-se um com o outro. Como todos nós com a dupla e, agora, com o livro de Steiner.Paulo Bentancur é escritor, poeta, crítico literário, autor de Bodas de Osso e A Solidão do Diabo, ambos da Bertrand Brasil

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