O escritor sai da sombra

Nova edição de Crônica da Casa Assassinada marca 50 anos do lançamento do romance de Lúcio Cardoso, autor redescoberto em teses e adaptações teatrais

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2009 | 00h00

Meio século após a publicação desse que é um dos monumentos literários do País, o romance Crônica da Casa Assassinada, do mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968), vai ganhar não uma, mas duas adaptações teatrais, e ainda uma nova edição da editora Civilização Brasileira, que relança toda a obra do autor, mais estudado na Academia que lido fora dela. Lástima. Em 1959, Crônica da Casa Assassinada foi saudado como obra-prima, o que não impediu que outros livros seus ficassem fora de catálogo pelas quatro décadas seguintes. Melhor destino não teve a poesia desse que é considerado o Dostoievski brasileiro, quase tão ignorada nas escolas como seus contos e peças, para não falar do único filme dirigido pelo escritor, aos 37 anos, A Mulher de Longe (1949), ainda menos conhecido que o restante de sua obra. Filho de uma tradicional família mineira, Cardoso buscou nela seu ?rosebud? wellesiano, trocando as cores do romance regionalista, em voga na época de suas primeiras publicações (anos 1930), pelo preto-e-branco de sua literatura feita de sombras e passado, embora conduzida pela luz da modernidade. Seus personagens, torturados pela culpa de amores incestuosos ou interditos por outras razões, são tão desconcertantes que até Mário de Andrade, numa carta dirigida ao autor a respeito de A Luz no Subsolo, reconheceu sua singularidade, revelando que esse "romance estranho e assombrado", embora lhe parecesse um tanto absurdo, tinha criaturas loucas o bastante para o deixar com a sensação de que recebera "um bruto soco no estômago". A Luz no Subsolo é de 1936. Naturalmente, ainda não tem a dimensão monumental de Crônica da Casa Assassinada, seu romance polifônico em que cada personagem corresponde a um dos "pedaços" de Minas que lhe faltam e não podem ser recuperados, ardendo no vazio existencial à espera que Cardoso se fizesse inteiro com seus fragmentos. É no vácuo entre uma e outra época que paira essa ficção, segundo a professora de Literatura Maria Teresinha Martins, autora de uma tese sobre o escritor (Luz e Sombra em Lúcio Cardoso). Ela mostra como os pontos de vista dos vários narradores servem para projetar luz e sombra na protagonista Nina, mantendo unida - ainda que na decadência - a sua perturbada família. Na velha Chácara dos Meneses, de Vila Velha, dominada por paixões incestuosas, rivalidade e loucura, Cardoso usa o método proustiano para tratar do desajuste com uma certa aura de normalidade, como se ele mesmo fosse a governanta Betty, escondido atrás do silêncio de quem tudo observa, acompanhando a rotina dos diários gideanos escritos por ela ou André, que mantém uma relação incestuosa com a suposta mãe, Nina, mulher de um dos irmãos proprietários da fazenda. Há muito de Gide, assim como de Tolstoi e Bernanos em Lúcio Cardoso, e ainda mais de Julien Green. O movimento pendular dos personagens solitários, encerrados nas sombras da escuridão moral e aspirando pela luz pascaliana, faz lembrar todos esses grandes autores a quem Cardoso já foi comparado por críticos no passado, a começar por Lêdo Ivo, aqui mesmo no Estado, em 1944, época do lançamento de Dias Perdidos. Mas, ao contrário de André Gide, cujos ?jornaux? eram suficientemente reveladores para provocar burgueses escandalizáveis, os diários de Cardoso são marcados por um pudor excessivo e certo policiamento que dificultam ao leitor a entrada em seu mundo privado. O Estado teve acesso a um dos poemas inéditos do escritor (leia ?Receita de Homem? na página seguinte) em que ele revela sua irrefreável inclinação homossexual - nunca assumida abertamente por ele, um autor que entendia as mulheres como talvez só Machado de Assis ousara entender. Sua Nina, de Crônica da Casa Assassinada, é uma criação à altura de Capitu, despótica, desafiadora e enigmática a ponto de abalar a estrutura da tradicional família mineira. Por ela também seduzida, a atriz Daniela Carmona teve a ideia de levar adiante um projeto de adaptação teatral do romance, a cargo de Juca Rodrigues (que adaptou Dois Irmãos, de Milton Hatoum), ainda sem data de estreia. Com direção de Chiquinho Medeiros, a peça deve seguir o método adotado pelo grupo Teatro da Vertigem, de Antonio Araújo, que costuma usar espaços não-convencionais (prisões, hospitais) em suas montagens. "Nossa intenção não é fazer teatro, mas trazer o público para dentro da encenação", revela Daniela, que aguarda a liberação de recursos para começar os ensaios, provavelmente no Sesc Belenzinho, em São Paulo. "Acredito que a transgressora Nina, com sua coragem para desafiar normas sociais, tem muito a dizer ao nosso tempo", comenta. Outra adaptação está sendo cogitada para 2010 com direção do mineiro Gabriel Villela, mais uma vez em colaboração com o tradutor de Calígula, o editor do Caderno 2 Dib Carneiro Neto, que já trabalha na adaptação do romance de Cardoso, um dos sete livros que a Civilização Brasileira relançou desde a edição comemorativa dos 40 anos de Crônica da Casa Assassinada, em 1999. A editora promete para maio uma nova edição do romance e ainda traduções de Cardoso há muito esgotadas, como a de Drácula, de Bram Stoker. Sobrinho e curador da obra do escritor, o crítico de arte Rafael Cardoso revela que há ainda textos inéditos do tio. E mais outros, que foram publicados com cortes. É o caso do Diário Completo, que não é lá tão completo assim. Muitas confissões íntimas do escritor foram expurgadas na edição original - "são as partes mais sensíveis e correspondem a um quarto do que saiu publicado na época da última edição", diz o sobrinho. Perguntas incômodas de jornalistas sobre alcoolismo e homossexualidade encontram respostas nesse diário guardado na Casa de Ruy Barbosa, no Rio, onde estão seus manuscritos. Foi lá que o professor Esio Macedo Ribeiro garimpou poemas inéditos para sua tese sobre a poesia do escritor, defendida há três anos na USP. Organizador de sua poesia completa, ele levantou um número expressivo para uma produção desconhecida dos leitores e bastante elogiada por grandes críticos como José Paulo Paes (1926-1998). Mais uma vez, a visão metafísica do mundo que marca a obra romanesca do autor mineiro é destacada por Paes para definir sua linguagem poética, caracterizada pelo "desespero ético" de um homem em busca da salvação e tremendamente atraído pela volúpia da perdição. Enfim, um Santo Agostinho com vocação para Baudelaire. Quem foi o autor Lúcio Cardoso (1912- 1968) começou a escrever adolescente, mas só publicou o primeiro livro aos 22 anos, Maleita (1934), romance passado no fim do século 19 em que o autor, baseado nas lembranças do pai, que fundou a cidade de Pirapora, conta a história dos ocupantes de um pedaço de terra na bacia mineira do Rio São Francisco. A seguir publicou Salgueiro (1935), sobre o morro carioca de mesmo nome, reeditado no ano passado pela Civilização Brasileira. Mas foi com A Luz no Subsolo (1936) que se afastou da tradição do romance regionalista para seguir sua vocação, que muitos associam à vertente gótica europeia. Nessa virada literária, Cardoso definiu seu estilo, tratando de criaturas que vivem perdidas entre o bem e o mal, Deus e o Demônio.

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