O erotismo, a razão e a decoração de Matisse

Organizado pela crítica Sonia Salzstein, livro traz textos sobre esses três temas

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Dois pintores marcaram definitivamente o século que passou, Matisse e Picasso, ambos visionários com ideias conflitantes sobre a função da arte. Matisse queria que sua arte fosse "como uma boa poltrona em que se descansa o corpo cansado". Picasso, ao contrário, queria eliminar a poltrona e tirar o espectador de sua posição confortável. Será mesmo assim? Até que ponto as interpretações da célebre frase matissiana - que provocaram irônicos comentários da turma de Picasso - não conduziram a uma leitura equivocada de sua obra? O livro Matisse: Imaginação, Erotismo, Visão Decorativa (Cosac Naify, organização de Sônia Salzstein, tradução de Denise Bottmann, 256 págs., R$ 79) trata justamente de atualizar a discussão da pintura de Matisse, homenageado com uma exposição aberta ontem na Pinacoteca do Estado.

 

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Nessa coletânea dedicada ao pintor figuram textos históricos de críticos como o inglês Roger Fry (1866-1934) e o norte-americano Clement Greenberg (1909-1994), análises de historiadores como o inglês T. J. Clark e o alemão Robert Kudielka, um ensaio do professor e filósofo argelino Yve-Alain Bois (autor de um livro sobre Matisse e Picasso) e outro do crítico brasileiro Ronaldo Brito. A organizadora do livro, a crítica Sônia Salzstein, convocou ainda artistas brasileiros como o pintor Paulo Pasta e a escultora e desenhista Iole de Freitas para registrarem suas impressões sobre Matisse. Cinco desses nomes - Kudielka, Sônia Salzstein, Ronaldo Brito, Iole de Freitas e Paulo Pasta - participam do Colóquio Internacional Matisse que começa na terça e vai até quinta-feira na Pinacoteca.

Kudielka é a grande estrela internacional do encontro. Filósofo, o alemão defende uma leitura fenomenológica da obra de Matisse. Também por isso sugere uma nova interpretação da expressão "pura", "genuína", incessantemente perseguida pelo pintor. O critério de pureza dos primeiros modernos do século 20 não é, evidentemente, o mesmo no conturbado mundo contemporâneo, dominado, como pontuou o crítico Arthur Danto - citado por Kudielka - por ecos políticos da noção de pureza e purgação. Matisse, desde o período de Nice, começou a fazer luz com a cor preta, lembra Kudielka, mostrando como a subversão dos princípios que o pintor defendeu a vida inteira o levou a criar uma pintura em que desejo de ordem e a antagônica força expressiva travam uma luta sem-fim.

O crítico Clement Greenberg viu nas telas de Matisse uma tentativa de conciliar o inconciliável. Não é, porém, o que pensa o brasileiro Ronaldo Brito. Ele diz que esses quadros "pretendem expor de maneira ostensiva o conflito, não dar trégua ao senso moderno do paradoxo". Em outras palavras, a pintura de Matisse assimilaria seus conflitos "em precário equilíbrio". Em seu ensaio sobre o pintor, T. J. Clark diz, a respeito, que uma tela como Mulher com Chapéu não é o Quadro Negro (1913), do russo Maliévitch, defendendo que os dois são os polos opostos do modernismo: o suprematista seria a revolução e Matisse, "o fulgor do Antigo Regime". O "frio e calculista" Matisse também é Matisse "o sensualista" quando usa modernamente o preto para "espreitar para além dos vermelhos e amarelos resplandecentes".

O pintor Paulo Pasta desenvolve esse conceito de Clark , acrescentando que a atitude de Matisse diante do trabalho e da vida "sugere uma modalidade de ascese, de purificação". Toda a alegria de suas pinturas viria carregada de uma "operação paradoxal", na qual Matisse tenta rimar espontaneidade com complexidade. "Matisse sempre quis ser o pintor não do confronto, como Picasso, mas aquele que estabelece relações, cria pontes." Faz o outro alegre, enfim. Seu sentimento religioso, escreve Pasta, nasce do exercício do trabalho, e mesmo o seu erotismo, a volúpia de suas telas, "eram organizados", construídos "com armas apolíneas".

Um dos mais originais textos da coletânea é o de Yve-Alain Bois. O coeditor da prestigiada publicação acadêmica sobre arte, a October, pergunta a origem do desejo de expansão de Matisse e ele mesmo dá a resposta: não exatamente da arte islâmica, como se pensa. O pintor visitou três mostras de arte islâmica em Paris entre 1893 e 1903, mas em seu quadro "mais islâmico", Interior com Berinjelas, não há nenhum efeito que Matisse "já não tivesse ousado alcançar por outros meios salvo o do padrão decorativo". Em suma: não há sombra de orientalismo em sua pintura, argumenta. Está aí uma opinião para provocar polêmica no colóquio sobre o pintor francês.

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