O entra-e-sai modernista

Exposição da Coleção Itaú reúne no Masp 74 artistas que entraram e saíram da modernidade sem pedir licença, levando a duvidar dessa vocação revolucionária

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

27 Fevereiro 2008 | 00h00

Até o escritor Mário de Andrade, um dos articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, reconheceu que a revolução formal e o projeto ideológico do modernismo brasileiro nunca foram compatíveis, acompanhando com certo desencanto a diluição estética do movimento através dos tempos. A exposição Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade: Arte no Brasil 1911-1980, que será aberta hoje, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), aprofunda essa discussão ao reunir 74 dos principais artistas diretamente ligados ao movimento ou herdeiros da tradição modernista, numa mostra com 135 obras da Coleção Itaú, impressionante acervo com mais de 3 mil trabalhos assinados por Anita Malfatti, Brecheret, Di Cavalcanti, Ernesto de Fiori, Guignard, Iberê Camargo, Lasar Segall, Maria Martins, Pancetti, Portinari, Tarsila do Amaral e Volpi, entre outros artistas. Veja galeria de fotos das obras Num mesmo espaço e por tempo limitado (dois meses e meio) obras-primas como a escultura O Impossível, assinada por Maria Martins (1900-1973), vão provocar o público com a pergunta que moveu o curador do Masp e da mostra, Teixeira Coelho, a aceitar o encargo de responder por que a modernidade nunca foi por aqui um processo fluente e natural. O bronze de Maria Martins (reproduzido nesta página), fundido na década de 1940, é um bom exemplo de como são insondáveis os caminhos da arte moderna brasileira: esses dois seres que se devoram mutuamente na escultura seriam formas recicladas dos canibais pintados nos anos 1920 por Tarsila do Amaral, um comentário feminista sobre as formas brutas de um Brasil arcaico ou uma peça encaixada na tradição surrealista européia? Um pouco disso tudo e ainda mais: a escultura, peça de importância museológica com tiragem de seis exemplares - e que bem poderia ser uma histórica doação do Itaú ao Masp -, é um cruzamento híbrido que reforça o título da mostra, inspirado no subtítulo de um livro do antropólogo argentino Néstor García Canclini (Culturas Híbridas, 1989, publicado há dois anos pela Edusp). Maria Martins, que viveu anos fora do Brasil e sempre esteve à frente de sua época, encontrou a própria estratégia para entrar e sair da modernidade, que parece "nunca acabar de chegar à América Latina, embora dela já tenha sido eliminada", como observa o curador a respeito da indagação de Canclini sobre os rumos do continente. Mulher do embaixador Carlos Martins e amiga íntima de Duchamp e Mondrian, a estratégia de Maria Martins foi a de sair do Brasil para sexualizar a arte brasileira com formas modernistas prototípicas, provocando desconforto moral no país da cobra grande. Nenhuma das artistas que a precederam no Brasil (Tarsila e Anita incluídas) foram tão longe em matéria de provocação, observa o curador. Naturalmente, não se mede a modernidade por sua capacidade de chocar burgueses escandalizáveis. Nem por seus esforços em alcançá-la. "Alguns artistas entraram e saíram dela alternadamente", reflete Teixeira Coelho, e esse movimento pendular explica, por exemplo, como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral voltaram a pintar de forma quase acadêmica no fim da vida. Ou mesmo antes do crepúsculo existencial. Há na mostra dois exemplos representativos desse recalque: um vaso de flores pintado por Anita Malfatti nos anos 1950 e um retrato feito por Tarsila nos anos 1940 (o jornalista Luís Martins, seu marido). Nem de longe expressam a inquietação modernista das duas musas do movimento que teria abalado os alicerces da academia no Brasil, em 1922. Assim, por detectar certa ambigüidade no Modernismo, o curador Teixeira Coelho evitou dividir a exposição por movimentos ou grupos. Não há uma sala para os concretos, outra para os expressionistas ou ainda uma terceira para os informais. Eles convivem num limbo temporal e espacial que traduz a errância dos artistas brasileiros pelo grande sertão da modernidade. Há apenas uma divisão alternativa por afinidades eletivas. Assim, na primeira das cinco salas intercomunicáveis (não há saída de emergência para a modernidade), Volpi pode ser visto tanto no segmento A aparência simples das coisas - em que modernos dialogam com o imaginário popular - como na sala Abstrações, que reúne algumas preciosas obras da Coleção Itaú, entre elas um óleo pintado em 1959 por Willys de Castro e dois metaequemas de Hélio Oiticica (guaches sobre cartão, ambos de 1957), além de um pioneiro trabalho concreto de Luiz Sacilotto (Vibrações Verticais, de 1952) . A Coleção Itaú, iniciada por seu presidente Olavo Egydio Setubal e ampliada por seu filho Alfredo Setubal, contempla praticamente todas as tendências e manifestações artísticas visíveis após o modernismo, reunindo desde nomes imediatamente reconhecíveis, como Portinari, até artistas pouco vistos, como o pintor Carlos Prado, de quem o Masp expõe um curioso óleo, Meninos com Bola (década de 1940). Ele representa o desvio do modernismo do campo formal para o ideológico, depois da Revolução de 1930. Os artistas já não queriam inserir o Brasil num quadro moderno, mas mudar a realidade desse quadro. Já estava longe o projeto de resgatar a cultura arcaica e os mitos primevos da Semana de 22. Tratava-se de dar uma resposta ao avanço industrial e à questão social. Portinari, ótimo retratista acadêmico, mas modernista sem convicção, surge nesse cenário de realismo a qualquer custo. O Brasil ao que parece, cansava de ser moderno. Queria ser eterno. Serviço Arte no Brasil 1911-1980 na Coleção Itaú. Masp. Av. Paulista, 1.578, 3251-5644. 3.ª a dom., 11h/18h (5.ª, até 20h). R$ 15 (3ª, grátis). Até 18/5. Hoje, abertura e lançamento de livro.

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