O eclipse da Lua e da diva do palco

Peça de Jandira Martini, dirigida por Jô Soares, recria a viagem da atriz italiana Eleonora Duse a São Paulo, em 1907

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2008 | 00h00

O Eclipse será visto provavelmente de duas maneiras. Uma, a do relacionamento de uma artista italiana, temperamental e infeliz, com o funcionário do hotel de luxo onde ela se hospeda. A progressão desse contato terá o efeito de Conduzindo Miss Daisy, com Jessica Tandy e Morgan Freeman (1989). O público mais informado saberá da importância da mulher Eleonora Duse (1858- 1924), atriz célebre. O enredo, ambientado na São Paulo de 1907, mostra seu contato imaginário com um compatriota imigrante, funcionário do hotel em que ela fica hospedada. Encontro de sonhos e frustrações revelados por Jandira Martini e Roney Facchini, intérpretes com talento e temperamento para esses papéis.A comédia de toque dramático tem um fundo existencial de indagação sobre o tempo, envelhecimento e a relatividade da glória. Duse estava com 48 anos, bem afetada pela tuberculose e com os nervos e os preconceitos à flor da pele. Demonstrou desdém em relação à provinciana São Paulo e pelo conterrâneo visto como um napolitano rústico. Jandira carrega nas tintas para obter adiante o efeito desejado. A trama inclui o encontro da estrela com o espanhol Francisco Serrador, que iniciou a primeira rede de cinema no Brasil entre 1906 e 1922. Essa atriz realmente excepcional viveu a mesma época e evidência da francesa Sarah Bernhardt (1844-1923). A distância no tempo não permite avaliação precisa das duas. Sarah teria mais técnica, Duse maior instinto e intensidade. Uma terceira dama da cena, a inglesa Ellen Terry (1847- 1928) disse, enfim, o que interessa: "Como é fútil fazer comparações. Muito melhor é agradecer o céu por essas duas mulheres."O foco dirige-se não aos estilos de representar, mas às três vidas. Duse está deprimida pelo fim do romance de 16 anos com o escritor Gabriele D?Annunzio (1863-1938), figura megalomaníaca e polêmica de quem recebeu peças de sucesso como A Cidade Morta e Francesca da Rimini. O napolitano descobriu que a imigração não resolveu sua pobreza, e Serrador confia que vencerá.Jandira Martini expõe a ironia cruel dos derrotados com prestígio, o mau humor dos depressivos e o paradoxo da arrogância vazia de quem se sabe vazio. A psicologia predomina sobre o factual. São Paulo, propriamente, só aparece nas menções desabonadoras da diva. Na mesma época, consagrados intérpretes portugueses se apresentavam no Brasil e registraram suas impressões em detalhes, com o fez Adelina Abranches ("tinha 19 anos - 1885 - quando fui a primeira vez ao Brasil. Quando cheguei ao Rio, fiquei boquiaberta"); Eduardo Brasão ("desde 1871, eu conheço o Brasil, que visitei 12 vezes durante a minha carreira laboriosa de artista, sempre com o mesmo fiel sentimento de estima"); Lucinda e Lucília Simões e o cômico Chaby Pinheiro - um personagem à espera de Jô Soares como ator - ("em São Paulo, um grupo de admiradores organizou banquetes e passeios. Paulo Prado, Freitas Valle foram amabilíssimos ..."). Esse intercâmbio, que tinha como recíproca a acolhida calorosa aos brasileiros do teatro, dentre eles Leopoldo Fróes, hoje só se mantém da parte de Portugal, que nos acolhe com entusiasmo como recentemente se comprovou nas temporadas de Irene Ravache e, em seguida, Antonio Fagundes. Não se sabe quando, e pode-se ser pessimista, haverá interesse pelo teatro português no Brasil atual.Jandira é afinada até no sobrenome com o universo cultural e político italiano (autora de Em Defesa do Companheiro Gigi Damiani e Porca Miséria). Impõe o tom latino-mediterrâneo dos destemperos de Duse à sua comovida aceitação solidária do napolitano que tanto a venera. Como intérprete, ela tem a energia nervosa da protagonista em sintonia perfeita com Roney Facchini, simpático e à vontade. Cabe a Mauricio Guilherme o esforço de ser Francisco Serrador, no breve espaço que lhe sobra. Como diretor, Jô Soares foi generoso ao guiar discretamente os andamentos desses recortes de memória, nostalgia, frases de efeito, lances cômicos e muita solidão no lusco-fusco de uma grande vida, durante o real e poético eclipse lunar ocorrido em 1907, quando "La Divina Duse" estava in Brasile. ServiçoO Eclipse. 80 minutos. 10 anos. Teatro Jaraguá (278 lugares). Rua Martins Fontes, 71, Centro, telefone 3255-4380. Quinta, às 21h30; sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 60. Até 26/10

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