O discurso e a peruca

Imagino o espanto, as gargalhadas ou a piedade de algum amigo estrangeiro se eu lhe mostrasse uma galeria de fotos do atual Senado. Sarney, Renan, Cafeteira, Gim, Gilvam, Cabeleira, Almeidinha, Agaciel, uma turma de meter medo. Ele poderia pensar que era um elenco de procurados.O que é esse Gazineo, com sua peruca circense? Nenhum preconceito contra os sem-cabelo, mas nenhuma careca pode ser mais feia ou ridícula do que aquilo. Vejam o exemplo do Zé Dirceu: os fios justificam os meios. Será que o plano de saúde do Senado não paga implantes? Se não, edita-se um ato secreto e institue-se a bolsa-cabeleira. A peruca do Gazineo é uma metáfora do Senado e do discurso de Sarney: tentando encobrir o incobrível acaba revelando-o ainda mais escandaloso.E o poderoso Agaciel e seu olhar delubiano? Quem daria a chave do seu carro para alguém com aquela pinta estacioná-lo? Quem compraria dele um carro usado, ou mesmo zero? Oscar Wilde dizia que só os tolos se enganam com as aparências. O Senado lhe dá toda razão. Olhem os senadores. Não é porque são velhos ou feios, carecas ou barrigudos, nada disso é defeito, são coisas da vida e do tempo, que, às vezes, combinadas com inteligência, humor e caráter, resultam em belas figuras humanas. No Senado, resultaram em figuras grotescas que refletem a sua feiura interior.Com suas oratórias antiquadas, eles se sentem capazes de convencer qualquer um de qualquer coisa. Eles têm certeza de que, com o tempo, tudo se esquece. Minha única esperança é que a Polícia Federal aperte o cerco aos funcionários e estes, abandonados por seus padrinhos, finalmente abram suas bocas cansadas de dizer sim-senhor senador, e entreguem todas as podridões que conhecem por dentro. No caso, os maus-carateres inspiram mais confiança do que os bons.Fora isso, pouco me resta de esperanças de ver uma boa parte do Senado despejada no esgoto da História. Então faço o que posso, o que muitos gostariam, achincalhando-lhes as perucas e tinturas, as caras medonhas e bexiguentas, avacalhando com esses homens que, por incrível que pareça, são muito vaidosos.

Nelson Motta, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

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