O discurso dos ossos de Descartes

O nome do autor me fez comprar o livro às pressas, a caminho do portão de embarque para um vôo doméstico. Devorei a maior parte do volume durante a viagem. Desconfio que, se Russell Shorto se engraçar pela história dos aparelhos dentários, será capaz de produzir, senão um best-seller, uma narrativa literária absorvente para qualquer leitor.Shorto é o autor do inestimável A Ilha no Centro do Mundo, sobre a importância da cultura holandesa na formação liberal dos Estados Unidos. Os Ossos de Descartes, Uma História Esquelética do Conflito Entre a Fé e a Razão (a ser lançado pela Objetiva em 2009) não foi planejado para coincidir com a eleição americana. Mas, quando soube que o autor estava em Nova York (ele se mudou para Amsterdã) e o procurei para conversar, pensei em cobrar dele: Você não podia ter concluído o livro um pouco antes e contribuir para amenizar o febeapá fundamentalista?O fundamentalismo criticado por Shorto não é apenas o de Sarah Palin, perdão pela fixação, mas a governadora é generosa nos exemplos, convencida de que homens e dinossauros passeavam juntos pela Terra há seis mil anos. Shorto está preocupado também com o fundamentalismo da razão. "Suspeito que muito do papo sobre valorizar a tradição ocidental dá cobertura para o bruto impulso ?nós ou eles?, diz o autor. O argumento pede atenção, no momento em que o recente status de best-seller de Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens, é testemunha da reação bem-vinda ao melancólico espetáculo de zelo cristão americano. Mas é também uma exortação à tolerância zero com qualquer forma de religiosidade.O interesse do autor pelos ossos ilustres começou em 2003, quando ele leu uma referência ao fato de que os restos de René Descartes haviam sido desenterrados, 16 anos depois da morte do filósofo, em Estocolmo, em 1650.A curiosidade inicial o levou a retraçar o percurso dos ossos de Descartes, por si só uma narrativa fascinante. Note-se a ironia de que o crânio foi separado do resto do esqueleto do filósofo que articulou o dualismo mente-corpo. Mas Os Ossos de Descartes narra também as conseqüências das idéias do homem que declarou "Penso, Logo Existo" e, talvez, mais do que nenhum outro indivíduo, pode merecer crédito e culpa pelo que chamamos de modernidade. Shorto argumenta que a astronomia não é o marco necessário do homem pós-medieval. Se o nosso lugar no universo é fundamental para a nossa identidade, diz ele, o bem-estar físico é ainda mais importante. No século 17, a expectativa de vida na França era de 28 anos, a mesma da Roma antiga.Sem René Descartes a história da medicina, da democracia, do Iluminismo e até da bomba atômica teria que ser reescrita."Vejo a religião como vejo a arte", comenta Shorto, alheio à chegada do público que vai encher um auditório para ouvi-lo. Depois de deixar claro que o estrago cometido em nome da religião é muito mais grave, ele compara arte e religião como esforços para lidar com a complexidade do mundo - o gênio filosófico que René Descartes tirou da garrafa.Shorto lembra que a história está repleta de exemplos da destrutividade do secularismo radical. O pensamento científico produziu avanços paralelos em direção ao progresso e à estupidez maléfica. Seu exemplo favorito é Georges Cuvier, um dos pais da biologia, o precursor de Darwin que tentou provar a relação entre o tamanho do cérebro e a inteligência e publicou textos sobre o parentesco dos negros africanos com orangotangos. "Boa e má ciência caminham juntas", lembra. O crânio de Descartes, que repousa num cofre no Museu do Homem em Paris, é relativamente pequeno.O autor me conta que o 11 de Setembro pairou sobre seu interesse no esqueleto físico e metafórico. "Vivíamos repetindo que os valores ocidentais estavam sob ataque e disse, ok, vamos nos lembrar que valores são esses." Ele acredita que um dos motivos da mobilização notável em torno da campanha presidencial americana em 2008 foi a radicalização obtusa produzida pela era Bush. Numa passagem, Shorto destaca o comentário feito por um pastor fundamentalista que fora visitar em Maryland - "Se você pensar bem, tudo começa com Descartes." O pastor se referia ao feminismo, ao controle da natalidade, ao homossexualismo e a Charles Darwin. "Quero deixar claro que considero gente como Christopher Hitchens igualmente estreitas", diz Shorto, que cresceu numa família católica mas é agnóstico, não batizou suas filhas.Ele supõe que o pós-secularismo proposto pelo filósofo alemão Jürgen Habermas - uma terceira via, em que a mentalidade secular e a religiosa seriam assimiladas - é uma saída possível para o dilema da modernidade. Afinal, a primazia da razão é um estágio ignorado ainda hoje pela maior parte da população do planeta.Por escrever antes de conhecer o resultado da eleição presidencial americana mais importante da minha geração, no meu temor agnóstico de uma vitória do obscurantismo, recorro a um crente ilustrado. O pré-cartesiano Abracurcix, chefe da aldeia de Asterix, o Gaulês, tinha sua razão para exortar: "Que os céus não caiam sobre as nossas cabeças!"

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