O diretor ''brasileiro'' de Israel

Eran Riklis, que já morou no Brasil, mostra o seu Lemon Tree no 12.º Festival do Cinema Judaico, que começa hoje

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2008 | 00h00

Eran Riklis chegou ontem a São Paulo para a abertura do 12º Festival do Cinema Judaico. Ele mostra hoje seu filme Lemon Tree para o público e vai amanhã ao Rio para prestigiar a sessão de pré-estréia. Lemon Tree está programado para estrear sexta-feira nos cinemas brasileiros. Numa conversa por telefone de Tel-Aviv, na semana passada, Riklis confessou que estava animado por voltar ao Brasil, e ao Rio, onde viveu numa época decisiva de sua formação. "Meu pai era diplomata e chegamos ao Brasil após a guerra de 67, em Israel. De 68 a 71, cursei a Escola Americana, no Rio, em plena Guerra do Vietnã. Vivi aí a agitação política do fim dos anos 60. Via comédias italianas, assistia a filmes asiáticos de kung fu. Deixei seu país aos 16 anos e meio, com a cabeça feita. O Brasil foi muito importante para mim."Lemon Tree ganhou o prêmio do público no Festival de Berlim. Será um dos grandes destaques do evento que todo ano traz uma súmula do que de melhor se produz no cinema de tradição ou influência judaica de todo o mundo, não necessariamente israelense. Este ano, a responsabilidade é maior porque o festival comemora os 60 anos de fundação do Estado de Israel. Riklis é o diretor de A Noiva Síria, que tanto sucesso fez na Mostra e, depois, nos circuitos mais seletivos das grandes capitais brasileiras. Como Riklis conta, Lemon Tree nasceu de um desejo. "Queria trabalhar de novo com a atriz Hiam Abbass, de A Noiva Síria. Comecei a procurar um tema para ela e topei com essa história na internet, sobre uma mulher palestina que vai à Suprema Corte de Israel pelo direito de manter seu limoeiro, que o Exército israelense considera uma ameaça à segurança nacional.É melhor explicar direito. No filme, o limoeiro - a lemon tree - localiza-se sobre a linha verde que definia a fronteira de Israel antes de 1967. A personagem de Hiam chama-se Salma, seu novo vizinho é o ministro da Defesa de Israel. A árvore é considerada um perigo para a sua segurança. Pode servir para observação ou até para um atentado. O Exército quer derrubar a árvore. Salma, para defendê-la, contrata este jovem advogado que leva o caso adiante, até a Suprema Corte. A história é real na sua essência, mas ganhou contornos ficcionais no tratamento de Eran Riklis, inclusive na silenciosa cumplicidade que se estabelece, mediante uma simples troca de olhar, entre Salma e a mulher do militar.Uma história que é quase nada - e representa tudo. "É a melhor maneira de falar de política", explica o diretor. "Falando de gente." Ele sabe que atingiu o objetivo pela acolhida que seu filme teve junto a platéias tão diferentes quanto as de Berlim, Taiwan e Índia. "Em todos os lugares onde fui mostrar Lemon Tree, encontrei sempre platéias calorosas para o sentido do filme." E que sentido é esse? "Tento sempre mostrar que o mundo é mais complicado do que parece, e isso aprendi no Brasil. Queira ou não, o limoeiro é uma metáfora internacionalmente aceita. O limão é ácido, mas pode virar uma doce limonada. A luta de Salma por sua árvore é uma luta contra o absurdo crescente do mundo em que vivemos."É inevitável, em se falando com um cineasta de Israel, perguntar como ele encara a sempre delicada situação do Oriente Médio? Riklis busca socorro no dramaturgo árabe/israeli Emil Habib, que diz que é preciso ser "pessimista/otimista". "Não podemos acreditar que nunca será encontrada uma forma de convivência entre opostos no Oriente Médio." Desde que se iniciou na carreira - com In a Clear Day You Can See Damascus, de 1984, também baseado numa história real -, Riklis tem usado o cinema como uma janela para o entendimento do outro. Israelense, ele prefere se apresentar como um cineasta do mundo. E diz que aprendeu, na publicidade e na televisão, como é importante se comunicar. "Não estou falando em concessão, mas comunicação, note bem."

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