O difícil ato de matar o primeiro e grande amor

Esse é o mote de Natureza Morta, texto de Mário Viana inspirado em pintura de Edvard Munch, drama denso e curto interpretado por Anna Cecília Junqueira

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

19 de fevereiro de 2009 | 00h00

No quadro Natureza Morta (A Assassina), do pintor norueguês Edvard Munch (1863- 1944), uma mulher, num quarto, olha diretamente na direção de quem aprecia o quadro. No ambiente, uma mesa com um cesto de frutas e um bolo e, ao seu lado esquerdo, uma cama desalinhada sobre a qual se pode ver um homem ensanguentado, supostamente o ?assassinado? do título. Exposta no Brasil na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, essa pintura foi a fonte de inspiração para o dramaturgo Mário Viana escrever o monólogo Natureza Morta.O autor simplesmente imaginou a confissão dessa mulher, que fala a um invisível pintor os motivos de seu ato. Que não se espere algo banal no estilo triângulo amoroso, traição, melodrama. Viana, conhecido por comédias como Vestir o Pai e Carro de Paulista, criou aqui um texto denso e breve - a montagem tem apenas 30 minutos - no qual aborda a dor do fim de amor. Quem quiser conferir pode fazê-lo a partir de amanhã, quando o solo estreia na interpretação de Anna Cecília Junqueira e sob direção de Eric Lenate no Espaço dos Satyros. Quem viu 17 x Nelson da Cia Antikatártika deve lembrar da impressionante atuação de Anna Cecília em Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues. Ela também integrou o elenco de O Ensaio, de Jean Anouilh, na montagem do Tapa, convidada pelo diretor Eduardo Tolentino. Já Eric Lenate vem de uma longa experiência no Centro de Pesquisa Teatrak (CPT-Sesc)de Antunes Filho, onde atuou em peças como Senhora dos Afogados e dirigiu O Céu 5 Minutos Antes da Tempestade. Juntos, unem experiências nada desprezíveis que agora colocam a serviço de explorar todas as nuances desse drama concentrado. "Vamos ver como esse nosso aprendizado se traduz na cena, esperamos que em alguma coisa que mobilize as pessoas", diz Lenate. "Estamos trabalhando muito para dar expressão coerente ao turbilhão de emoções dessa mulher, seu jorro emotivo. O difícil é criar a tensão adequada, e controlada, para expressar ao caos interno dessa mulher, que transita por uma infinidade de sentimentos."Anna Cecília conta que chorou muito a primeira vez que leu o texto e também nos primeiros ensaios. "Ouvi o meu coração. Esse é um exercício de atriz que tenho de fazer nesse momento. Esse texto traduz o que quero falar." No original, a personagem tem cerca de 40 anos, aspecto eliminado nessa montagem, uma vez que a atriz está na faixa dos 20 anos. "Ela faz uma passagem - tem de matar o que a prende ao passado para ir em frente." Na época da criação da pintura, certamente era mais difícil para a mulher se libertar de um relacionamento. "Hoje, a gente rompe mais cedo, mas nem por isso o processo é menos doloroso." ServiçoNatureza Morta. Espaço dos Satyros Um. (70 lug.).Praça Roosevelt, 214, 3258-6345. 6.ª e sáb., meia-noite. R$ 20. Até 11/4

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.