O diálogo entre as imagens e a filosofia

O cinema de Wenders comparece à megamostra sob duas formas: em documentário e em seu último filme

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Wim Wenders tem sido a presença mais marcante nesta 32ª Mostra de Cinema de São Paulo. Na apresentação do filme sobre sua obra (Os Primeiros Anos de Wim Wenders, de Marcel Wehn), chegou de maneira discreta ao Cine Bombril, tomou um cafezinho e depois explicou à platéia pequena como havia embarcado nesse projeto de expor-se como personagem diante de outro cineasta. Também na apresentação do seu filme mais recente - Palermo Shooting -, Wenders ficou para debater com a platéia do CineSesc e, pacientemente, respondeu a perguntas do público até 1h da manhã. Veja trailer de Palermo ShootingNa conversa sobre Os Primeiros Anos, Wenders contou como se deixou convencer pelo estudante de cinema. "Ele pediu para me conhecer e isso foi fatal; conseguiu dobrar a minha falta de disposição em ter um filme sobre a minha pessoa e obra." Ora, para quem estava constrangido, Wenders até que se expõe bastante no documentário. O filme fala sobre a definição do percurso de cineasta, que se deu quando o então candidato a pintor foi morar em Paris e descobriu que um dos lugares mais acolhedores da cidade era a sala da Cinemateca Francesa. "Vi lá mais de mil filmes", conta. Tomou gosto pela coisa, até se tornar cineasta. O filme permite entender a parte inicial da obra de Wenders, a começar por sua preocupação filosófica (abandonou estudos de medicina e filosofia para dedicar-se ao cinema) e a imersão nas particularidades da sua geração, a saber a política e a droga. Wenders é bem sincero ao falar de uma overdose que quase lhe custou a vida e cujas conseqüências sentiu por vários anos. E também é franco ao buscar uma motivação comum, espécie de fio narrativo subterrâneo que uniria obra tão variada: "Fico sempre me perguntando como é possível para alguém viver num mundo como o nosso." Desse modo, seu "herói" recorrente é alguém num ambiente hostil. Qualquer ambiente, para dizer a verdade, pois todos eles contêm graus diferentes, porém sempre positivos, de hostilidade. Daí seus primeiros sucessos, de público ou crítica como O Medo do Goleiro Diante do Pênalti (1971), Alice nas Cidades (1973) e No Decurso do Tempo (1976) estarem banhados por uma reflexão que se poderia chamar de existencialista - a posição do homem em plena liberdade, porém diante de uma sociedade que não parece feita para torná-lo livre, ou feliz. O documentário de Marcel Wehn é importante ao traçar um retrato bastante aberto e multifacetado de Wenders, inclusive com depoimentos de amigos e ex-amigos como o montador Peter Przygodda e o ator Bruno Ganz. Revela também alguns dos fundamentos filosóficos do artista, o que resulta em compreensão maior de sua obra. Mas deixa de lado a pesquisa estética do cineasta, ou seja, a maneira como afronta seu material - o filme - e o utiliza para traduzir, ou trabalhar, suas inquietações e temas. Mesmo assim, é excelente documentário introdutório a uma obra complexa e em pleno percurso. O novo trecho desse caminho pessoal atende pelo título de Palermo Shooting. O filme é dedicado a Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman. "Estava escrevendo o roteiro quando os dois mestres morreram no mesmo dia", disse. Parêntese: a veneração de Wenders por Antonioni fez com que ele assumisse a co-direção de Além das Nuvens, porque foi a única maneira de conseguir que uma companhia de seguros avalizasse o projeto de Antonioni, velho e atingido por um derrame que lhe roubou a fala e dificultou movimentos. Palermo Shooting tem como fontes de inspiração duas obras-primas em particular - Blow Up, de Antonioni, e O Sétimo Selo, de Bergman. Através dos mestres, Wenders faz a sua reflexão sobre temas que lhe são caros - a morte, o amor e a banalização das imagens no mundo contemporâneo. O roqueiro Campino, em seu primeiro trabalho no cinema, é Finn, fotógrafo de moda em crise, que vai parar em Palermo para um trabalho e lá conhece a restauradora de obras de arte Flavia (Giovanna Mezzogiorno). Mas encontra também a morte, esta personificada em Dennis Hopper. Sim, o excesso de referências pesa, mas é difícil negar o interesse da reflexão de Wenders sobre a vida e a morte numa Palermo que parece saída de um sonho ao mesmo tempo lúcido e confuso. É um cinema de idéias, que parece incomodar quem não gosta delas. ServiçoPalermo Shooting Cine Bombril 1 - Sáb., 17h30HSBC Belas Artes 2 - 2.ª, 19h50Os Primeiros anos de Wim WendersiG Cine - 6.ª, 16 h

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.