O diálogo de um vira-lata com a obra de Pe. Antônio Vieira

The Cachorro Manco Show, texto de Fábio Mendes premiado em concurso luso-brasileiro, satiriza projeto de nação jesuíta

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

"Eu poderia estar mordendo, atacando ou até dormindo aqui na sua frente, mas não, eu preferi ter um minuto de sua atenção. Ração por minha narração", propõe o cão vira-lata, ou mendigo ou o artista - figuras que perpassam o solo do ator Leandro Daniel Colombo The Cachorro Manco Show. Dirigido por Moacir Chaves, é mais um dos monólogos que iniciam temporada neste fim de semana e vêm se juntar aos muitos já em cartaz na cidade.Mas não se trata de estreia absoluta, ainda não testada diante do público. The Cachorro Manco Show vem de temporadas bem-sucedidas, no Rio e em Portugal, e tem texto, de Fábio Mendes, premiado na 2ª edição do Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antonio José Silva, promovido pelo Instituto Camões e pela Funarte. A proposta do concurso, disputado por dezenas de autores brasileiros e portugueses, era uma homenagem ao Pe. Antonio Vieira."Quanto mais bem estruturado o meu sermão, mais rápido eu durmo embaixo de um teto! Retórica, para mim, é questão de sobrevivência", diz o ator nesse solo de humor ora ácido, ora terno, que tem inserções de trechos dos sermões de Vieira. "A jurada Carmem Gadelha comentou que meu texto fugia ao tom elogioso dos outros para criar um diálogo com a obra do Pe. Vieira", diz Fábio no camarim do Sesc da Paulista, após um ensaio acompanhado pelo Estado. No prefácio do livro com a peça, editado pela Funarte, Carmem, professora doutora da UFRJ, chama atenção para a forma como Fábio Mendes satiriza "as resultantes do projeto de nação jesuíta".Não dá para negar a força de argumentação da dramaturgia que faz o espectador não despregar olhos e ouvidos do ator, que ora é o cão do grego Ulisses, em Ítaca; ora o vira-lata de um político brasileiro corrupto. Todo o tempo ele transita por diferentes cães e seus donos ao longo da história. Artista paranaense integrante da Vigor Mortis, companhia que apresentou no Centro Cultural São Paulo ano passado o ótimo Graphic, Colombo revela-se intérprete de muitos recursos, vocais e corporais, sem exibicionismo. Moacir Chaves, responsável por convidá-lo, ressalta sua capacidade de compreensão como principal qualidade em cena. "O texto é jorro, moto-contínuo, mas não é discurso. A partir desse personagem a realidade histórica é absorvida e era preciso um ator com muita agilidade mental para manter a mesma fluidez de pensamento." Vale dizer que uma das fontes de inspiração para o autor - episódio que abre e fecha o solo - foi a atitude do mendigo que invadiu a Catedral da Sé, repleta de autoridades em dia de missa solene, dizendo: "Mata eu, São Paulo, eu não quero morrer de fome!" Na encenação, Chaves reforça a figura do artista sempre no limite da sobrevivência. ServiçoThe Cachorro Manco Show. 70 min. 14 anos. Sesc Paulista (65 lug.). Avenida Paulista, 119, 3179-3700. 6.ª a dom., 20h30. R$ 5 a R$ 20. Até 14/6

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