O dia em que São Paulo vai ouvir violinos e guitarras

Banda sueca Therion, que há 20 anos une heavy metal e música clássica, faz show hoje à noite no Citibank Hall

Humberto Maia Junior, O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2007 | 00h00

Por volta de 1975, na Suécia, uma mulher mostrou ao filho de 3 anos a Quinta Sinfonia de Beethoven. O menino se encantou e passou a ouvir o disco o tempo todo. Tanto que sua mãe, embora orgulhosa (''''ele vai ser um compositor clássico''''), não agüentou e deu-lhe fones de ouvido.Três anos depois, porém, o som do fone mudou. Ele já era fã de música pop. Aos 8, descobriu os Beatles e, no ano seguinte, a banda de heavy metal alemã Accept. O menino, chamado Christofer Johnsson, cresceu e carregou essa versatilidade até criar, em 1987, o Therion - banda que une heavy metal com música clássica e faz hoje em São Paulo apresentação única no Brasil.Bateria, baixo e riffs de guitarra em perfeita harmonia com violinos, oboés e vocais operísticos. Dá para imaginar como seria a música Ó Fortuna, da ópera Carmina Burana, de Carl Orff, com esses elementos? Pegue o álbum Deggial (2000) e você pode conferir o resultado. A versão cover sintetiza o trabalho da banda. Em Lemuria e Sirius B, lançados no mesmo dia em 2004, participaram das gravações cerca de 170 membros da Orquestra Filarmônica de Praga. Por isso, nem pense em comparações com as experiências feitas por bandas como Metallica, Deep Purple e Scorpions, que gravaram álbuns ao vivo com uma orquestra ao fundo. ''''Diferentemente das outras bandas, a orquestração faz parte do nosso processo de composição'''', explicou o guitarrista da banda, por telefone. ''''Outras bandas compõem uma música e depois colocam alguma orquestração para apimentar.''''Críticos já rotularam o Therion como uma banda de ''''symphonic-death metal'''' ou ''''opera-metal''''. Para Johnsson, perda de tempo. ''''Toco Habla-habla metal.'''' Ou seja, nem ele consegue definir o som da banda. ''''Temos influência de rock, progressive rock, dos anos 80 e folk music.''''Pelo lado da música clássica, a maior inspiração vem do compositor alemão Richard Wagner. ''''Algumas de suas composições se adaptam bem ao rock. Wagner estava muito à frente de seu tempo e usou tons e cadências que nunca haviam sido usadas antes.'''' Johnsson também cita como inspirações o francês Maurice Ravel e o alemão Richard Strauss.No show de hoje, como todos os da banda, não haverá orquestra. Algo financeiramente inviável. O coral será formado por quatro cantores, dois homens e duas mulheres. As partes orquestradas foram gravadas. Outro elemento que mostra como o Therion é uma banda peculiar é o fato de não ter um front singer - um vocalista carismático como Bruce Dickinson, do Iron Maiden. ''''Para músicas com conceitos diferentes, cantores diferentes.''''SEM CONSERVADORISMOO Therion surgiu no cenário underground de Estocolmo em 1987. Era uma banda típica de death metal - um dos estilos mais pesados. ''''O death metal foi uma resposta criativa à mesmice do trash metal, mas logo se tornou tão conservador'''', explica Johnsson. Foi nesse cenário que ele decidiu incorporar elementos de música clássica.No começo, de forma discreta. Apenas um ou outro vocal lírico feminino. Aos poucos, foram sendo agregados mais instrumentos - cordas e sopro. Theli (1996) foi o marco da união entre metal e música clássica. Em seguida, vieram Vovin (1998), mais melódico e com menos guitarras, Deggial (2000) e Secret of the Runes (2001), os mais eruditos. Depois de Lemuria e Sirius B, a banda lançou Gothic Caballa (2007), o mais acessível e industrial, mas com grande reação negativa dos fãs.O líder o Therion diz não se importar com a má crítica em relação ao último trabalho. ''''Disseram que o Vovin era muito pop, que Deggial era muito clássico e Secret of the Runes, ainda mais clássico. Já Lemuria e Sirius B eram pouco eruditos.''''Se o som da banda já é complexo o suficiente para mantê-la bem longe dos holofotes da fama (o álbum de maior sucesso, Vovin, vendeu cerca de 125 mil cópias ) as letras são ainda mais herméticas. São escritas por Thomas Karlsson, mestre em História das Idéias e História das Religiões pela Universidade de Estocolmo. Ligado ao esoterismo, ele narra sagas de deuses pagãos como Naamah, Kingu e Kali.''''Acho que 95% dos fãs não conseguem entender as letras. Mas elas não são para ser entendidas '''', afirma Johnsson. ''''Se eu quisesse isso, escreveria sobre bebedeiras ou problemas de um adolescente. Mas dá para imaginar uma música no Therion falando sobre isso?''''Serviço Therion. Citibank Hall (3.150 lug.). Avenida Jamaris, 213, Moema, tel. 6846-6040. Hoje, às 22 h. R$ 90 e R$ 140

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