O dia do recorde de Neil Gaiman

Escritor autografa livros de cerca de 600 fãs, nova marca da festa de Paraty

Ubiratan Brasil, PARATY, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 00h00

Ao vencedor, as praias - depois de estabelecer novo recorde de autógrafos na 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, justamente no ano em que se homenageia Machado de Assis, o inglês Neil Gaiman pretendia desfrutar o dia de ontem em alguma praia próxima da cidade. Um descanso merecido - no sábado, exatamente entre 13h15 e 18h35, ele saciou o desejo de aproximadamente 600 pessoas (segundo seu próprio cálculo) que aguardavam um autógrafo e a chance de estar perto do ídolo, fãs que sabem exatamente tudo sobre sua obra, especialmente a sua principal criação, Sandman, cultuado personagem dos quadrinhos.Desde o primeiro, um rapaz chamado Tiago Brancatelli, até a última, uma moça que ganhou um beijo e um abraço, Gaiman tratou com especial atenção, ouvindo qualquer comentário, observando a obra que esperava por sua assinatura, posando para fotos e filmagens, guardando os presentes que acumulavam ao seu lado. ''Tenho um especial carinho pelo leitor brasileiro, pois aqui foi o primeiro país estrangeiro a publicar minha obra'', disse Gaiman ao Estado, antes da maratona de autógrafos e da mesa que dividiu com o jornalista americano Richard Price.Adélia Prado e Chico Buarque de Holanda são autores que provocaram longas filas em edições passadas da Flip, mas nenhum deles conseguiu a proeza de continuar sentado enquanto duas levas de outros autores passaram ao seu lado - ele ainda assinava quando chegou a vez de Alessandro Baricco e Contardo Calligaris, improvisados em outro canto da mesa. E continuava lá quando esses foram substituídos por Cees Nooteboom e Fernando Vallejo.Nesse período, Gaiman não se levantou em nenhum momento da mesa, almoçando um prato de comida japonesa ali mesmo. Também gastou três de suas canetas especiais para dar seu autógrafo, que sempre é composto por um desenho, além da assinatura. E, para chegar à mesa onde os autores assinam seus livros, precisou da proteção de cinco seguranças. Habituada a longas sessões de veneração ao pai, Maddy, sua filha de 13 anos, o acompanhou durante algumas horas, cuidando dos presentes deixados pelos fãs.Em seu blog (http://journal.neilgaiman.com/), que é acessado habitualmente por 1,4 milhão de pessoas em média, Gaiman avisara que ficaria até o último pedido de autógrafo, torcendo apenas para que pudesse estar livre às 19 horas, quando começaria a palestra de seu amigo Tom Stoppard. O plano foi bem-sucedido para sua felicidade. Afinal, a dupla de britânicos lapidou uma camaradagem durante a Flip, iniciada na viagem que ambos fizeram de carro de São Paulo a Paraty e consolidada durante os dias em que passaram juntos na cidade fluminense. ''Ao ver que Tom, aos 71 anos, ainda tem longos cabelos e nem todos grisalhos, eu fico mais esperançoso'', brincou Gaiman no blog.Aos 47, ele mantém a estampa de um garotão: com cabelos desgrenhados, cavanhaque e vestindo apenas roupas negras, Gaiman tem quase um quarto de século de carreira e ainda ignora as regras ao soar vital e relevante, mesmo com seu aniversário de 50 anos chegando.Afinal, ele ainda eletriza os adolescentes e aterroriza os pais com um estilo de história em quadrinhos que cruzou continentes, culturas e classes. Com isso, atraiu para a Flip um público diferente do que habitualmente freqüenta a festa. ''Vim de Itu especialmente para vê-lo'', disse Mayra Fontebasso, de 18 anos, ostentando cabelos ligeiramente tingidos de vermelho e armados como uma crina, no melhor estilo punk.Não é a primeira vez que Gaiman atrai multidões no Brasil - nas duas outras visitas que fez a São Paulo, em 1995 e 2001, a Polícia Militar foi obrigada a cuidar da segurança. ''Fui embora no dia seguinte completamente sem voz'', relembra, orgulhoso.O escritor contou, durante sua palestra no sábado, que está acostumado a tamanho assédio, mas já enfrentou também situações inusitadas. ''Tenho fãs que se orgulham de me mostrar tatuagens inspiradas em meus personagens, mas, certa vez, em Los Angeles, um rapaz pediu para que assinasse embaixo de uma dessas tatuagens, em seu braço. Peguei a caneta e autografei. Depois de alguns minutos, ele voltou e, orgulhoso, me mostrou que acabara de tatuar a minha assinatura. Dava até para ver o sangue ainda escorrendo. Aquilo não foi muito legal.''

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