O destino inglório dos idiomas de proveta

Quase 900 línguas artificiais surgiram nos últimos séculos, a maioria natimorta

Sérgio Augusto, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

Quantas línguas existem no mundo? Cerca de 7 mil. Algumas são faladas por centenas de milhões de pessoas (80% da humanidade falam 83 línguas), outras por um número ínfimo de pessoas (3.500 são faladas por 0,2% da população mundial). Metade delas está ameaçada de extinção. Depois que os cinco anciões de Oklahoma que ainda se expressam em yuchi morrerem, o ancestral idioma dos índios do vale do Tennessee será apenas um registro histórico, como o eyak, a primeira língua nativa do Alasca, que perdeu sua última usuária em 2008.

Não se sabe direito como as línguas nascem, exceto aquelas inventadas do zero, as chamadas línguas artificiais ou construídas ("conlags", no jargão linguístico). Que são ou foram muitas: quase 900, nos últimos nove séculos; a maioria natimorta. Projetos utópicos, não raro esotéricos, faltou-lhes o essencial: seguidores suficientes.

Certo, há muito mais gente que fala e entende o esperanto ou mesmo o klingon (aquele idioleto globalmente celebrizado pela série Jornada nas Estrelas) do que o yuchi, o jeru, o thao, e outros idiomas naturais condenados à desaparição, mas isso não significa que as mais bem-sucedidas línguas de proveta tenham alguma chance de ser adotadas por uma população, como foram, por exemplo, o iorubá, o malgaxe, o nepalês.

No início do século passado, a dupla Louis Couturat-Leopold Leau fez o primeiro grande inventário das línguas artificiais. Em 1929, o lexicógrafo (e esperantista) russo Petr Stojan, ele próprio inventor de oito línguas, produziu outro levantamento, enriquecido, dois anos depois, por Ernst Drezen e, em 1960, por Marcel Monnerot-Dumaine. As "conlangs" conhecidas até 1973 foram consignadas por outro russo, Alexandre Dulichenko, que as rotulou de "línguas auxiliares internacionais", num livro fundamental, esgotado faz tempo, que a linguista americana Akira Okrent só conseguiu encontrar na Biblioteca do Congresso americano.

Ms. Okrent não entrou nesta história por acaso ou protecionismo. Graças a ela é que tomamos conhecimento das línguas inventadas mundo afora a partir de 1973. Ao todo, 46. Só nos primeiros sete anos deste século surgiram 11 "conlangs", nenhuma com a mesma carga idiossincrática do toki pona, idioma minimalista, inspirado no taoismo e voltado apenas para as boas coisas da vida; cria da canadense Sonja Elen Kisa, que, na pior das avaliações, inventou o equivalente linguístico do pensamento positivo.

De tanto ser bombardeada com panfletos sobre cursos relâmpagos de "grandes línguas filosóficas", Okrent, de 39 anos, diplomada pela Universidade de Chicago, resolveu investigar que línguas eram aquelas e suas precursoras. No meio do caminho, encantou-se pelas vidas dos inventores ("um bando de maravilhosos desajustados", diz ela) e decidiu pesquisar mais a fundo os motivos que os levaram a criar um novo código linguístico e acreditar em seu futuro. Sua pesquisa resultou num livro de 342 páginas, In the Land of Invented Languages (Spiegel & Grau), com informações preciosas, ou, no mínimo, curiosas, até para quem acha ser possível viver ignorando o significado de "leb 2314p 24778 pf 2477" (parece a fórmula do velho herói dos quadrinhos Ted Múltiple, mas é apenas a tradução de "honrar pai e mãe" para o Universal Character, idioma com números representando palavras e ideias, inventado por Cave Beck em 1657).

Línguas bastardas, como o pidgin (nascida do contato entre falantes de diversas línguas e que serve como segunda língua para fins especialmente comerciais), ou lúdicas, como a língua do pê, foram, por boas razões, descartadas.

Balaibalan, weltsprache, ars signorum, babm, panglottie, allgemeine schrift, neulatein, pasilingua, monopanglosse, alevato, kosmos, tal, balta, oidapa, glot, myrana, sermo, nepo, ido, dilpok - da imensa lista de línguas artificiais, minha ignorância só conhecia, mais por referência do que qualquer outra coisa, o esperanto, o klingon e o valepuk, esta em voga no final do século 19. Inventada por J.M. Schleyer, o valepuk chegou a ser praticada em duas centenas de clubes e sociedades fechadas. Okrent encontrou 25 publicações impressas naquele idioma, de aparência nórdica e com admiradores até na Casa Branca (o cachorro do presidente Grover Cleveland chamava-se Volepuk).

Em 1661, quando tinha apenas 18 anos, Isaac Newton construiu uma língua, de ambições universalistas, como tantas outras, e adrede chamada universal language. Na mesma época, o alquimista jesuíta alemão Athanasius Kircher, mais conhecido como o inventor da lanterna mágica, criou a polygraphia. Nenhuma particularmente sedutora. O que os moveu? Uma incômoda insatisfação com a "falta de coerência" de suas respectivas línguas maternas; e também com as demais conhecidas.

Limitações, todas as línguas naturais têm. Os verbos e os plurais irregulares talvez sejam o ponto fraco da língua inglesa, por exemplo. Se o plural de "mouse" (rato) é "mice", por que o de "house" (casa) é "houses" e não "hice", ousei perguntar ao meu primeiro professor de inglês - que não me deu uma resposta satisfatória. Tais deficiências, porém, não justificam as invencionices perpetradas, ao longo dos séculos, por ingleses e americanos. A língua universal de Newton era mais lógica que o inglês ("utor" era "hot", quente; "itor" era "cool", frio; "owtor", muito quente; e "oytor", muito frio), mas não é a lógica que dá vida, sobrevida, perenidade e universalidade a uma língua.

Okrent remonta ao século 12 para iniciar sua viagem pela "terra das línguas inventadas", pois data de 1150 a primeira "conlang" devidamente documentada: a lingua ignota, estalo da abadessa teutônica Hildegard von Bingen. Pioneirismo à parte, as mulheres nunca se preocuparam com inventar línguas. Suzette Halden Elgin foi outra exceção. Criou, em 1984, a primeira língua feminista, que batizou de láadan, cujas palavras tinham um "peso emocional" específico. Só para descrever o que a mulher sente ao menstruar, Elgin inventou seis expressões.

As nova falas mais recentes surgiram há dois anos, por assim dizer, já que, segundo Okrent, quase todo dia aparece uma novidade, notadamente no site www.spinoff.com/zbb, que, confesso, nunca acessei, justamente para não deparar com um asneirol do tipo dritok, a penúltima da lista, delírio onomatopaico de um tal de D. Boozer, que buscou sua inspiração na "fala" dos esquilos. Depois dessa, apareceu a nada pitoresca proto-central mountain: uma tentativa de recuperar a mais primitiva língua indígena da América do Norte, levada a efeito por Jeff Burke, que melhor faria se a tivesse batizado de algonquian ou cheyennese.

O esperanto não concretizou a quimera do oftalmologista Ludwig Lazar Zamenhof, mas teve uma boa performance. Enfunado pelo clima de otimismo reinante na Europa, no final do século 19, o polonês Zamenhof pensou num idioma internacional, na língua universal perfeita, a língua da paz e da compreensão plena, hoje ainda falada por milhares de pessoas, em diversas partes do mundo, em especial na Europa. Tolstoi foi um de seus maiores admiradores; o jovem George Soros, também, até por ser húngaro (a Hungria foi o principal canteiro do esperanto).

Okrent cogitou de criar uma língua especialmente para seu livro, mas acabou traída pela impaciência e pela falta de criatividade. Pensou num idioma em que cada palavra seria ligada a um mesmo conceito, "como os pássaros". Em vez de dizer telhado, diríamos, meio à oriental, "lugar onde os pássaros fazem ninho". Poético, sem dúvida. Mas o que será que meus interlocutores entenderiam quando eu dissesse "lugar coberto por telhas" ou "lugar onde os gatos namoram à noite"?

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