O deserto sem oásis de Paul Bowles

O Céu Que Nos Protege, que ganha nova tradução, retrata o desalento humano

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Em 1947, o americano Paul Bowles descobriu-se cansado. Apesar de festejado como compositor de óperas, balés e músicas para peças teatrais e filmes de Orson Welles e Elia Kazan, ele percebeu, naquele ano, que Nova York o aborrecia. "E a composição musical também me deixava nervoso. Queria sair de Manhattan, sair da Broadway, fugir de dezenas de milhares de notas musicais", disse Bowles, em entrevista ao jornal The New York Times, em 1990. Ele ainda vivia em Tânger, no Marrocos, para onde se mudara naquele 1947 em busca da magia bizarra da "cidade dos sonhos" que já havia conhecido em suas aventuras juvenis.

Lá, Bowles (1910-1999) iniciou uma nova carreira, pois "escrever livros era algo muito mais fácil do que compor músicas, com a vantagem de que não se fica preso a um lugar; a gente sempre tem a possibilidade de viajar durante o trabalho". Na verdade, a disposição surgiu ao acompanhar a dificuldade enfrentada pela mulher, Jane Auer. Ela era uma figura atípica: com traços físicos semelhantes aos de um rapaz, Jane mantinha-se tensa, escrevendo em fragmentos sempre impressionantes - naquele momento, produzia Two Serious Ladies, traduzido no Brasil pela L&PM como Duas Damas Bem Comportadas (esgotado), que recebeu rasgados elogios de Truman Capote.

O casal manteve um relacionamento heterodoxo, marcado pela bissexualidade assumida por ambos, que resultou em separações e relações extraconjugais. Mesmo assim, a presença de Jane revelou-se indispensável na vida artística de Bowles. Como ocorreu na escrita de The Sheltering Sky, O Céu Que Nos Protege, seu primeiro livro, publicado em outubro de 1949 e que ganha agora nova versão em português, com tradução de José Rubens Siqueira e edição da Alfaguara (272 páginas, R$ 43,90).

Filmado por Bernardo Bertolucci em 1990, o livro acompanha a trajetória de Kit (interpretada, na tela, por Debra Winger) e Port Moresby (John Malkovich), casal de norte-americanos que, após dez anos de matrimônio, vive de aparências, graças ao acentuado desprazer sexual. Assim, eles se apegam a uma viagem ao deserto do Saara como tentativa de conciliação. A Europa em que viviam, marcada pelo caos resultado da 2ª Guerra Mundial, também alimenta aventuras em outros continentes. E, na África, o casal percebe que a angústia é generalizada ao conhecer franceses, americanos e ingleses que perambulam pelo Marrocos compartilhando a amarga sensação de que a civilização falira - restando-lhes o eterno caminhar.

A incompatibilidade entre Kit e Port é evidente. Enquanto ela revela um medo crescente diante da imensidão desconhecida do deserto, o marido esbanja esperança, convencido de que só desfrutará novas sensações em um mundo completamente diferente do seu. Port aposta também que a aventura promoverá a reconciliação. Em vão - a situação se agrava graças à presença de Tunner, amigo que os acompanha pelo deserto. E, à medida que percebe a impossibilidade de recuperar o amor da mulher, Port facilita, ainda que involuntariamente, a aproximação dela com Tunner. O final é trágico: Port morre de febre tifoide enquanto Kit perde a razão, restando-lhe agarrar-se a uma caravana.

Escrito em acampamentos miseráveis, durante uma expedição ao Saara que durou nove meses, O Céu Que Nos Protege destila a insatisfação de Bowles com a civilização - americana em especial. Kit e Port, afastados um do outro, à procura de uma nova realização, acabam mergulhados ainda mais na solidão, sob um sol intenso que os conduz na direção da loucura e da morte. Em meio a uma claridade vibrante, os tempos da felicidade parecem irremediavelmente condenados ao passado.

Três meses depois de publicado, o livro entrou na lista dos mais vendidos do New York Times, no qual permaneceu por dez semanas. A obra, porém, correu o risco de não sair do papel. A editora Doubleday, depois de receber o manuscrito, preferiu não publicá-lo ao duvidar de sua condição de romance. Bowles irritou-se ("Se não é um romance, então não sei do que se trata") e repassou o material para a New Directions que, enfim, deu-lhe o formato de livro.

Ao iniciar a escrita, em 1945, Bowles foi tomado por uma série de dúvidas a respeito da qualidade do material. A necessária injeção de ânimo veio em uma carta da mulher, Jane, que o criticava por se referir ao trabalho como ?romancezinho?. "Estou certa de que será uma obra muito poderosa e duas vezes melhor que a minha", assinalou.

De fato, é especial a habilidade de Bowles em utilizar as palavras para criar imagens de uma beleza delicada e cruel. É bem verdade que o escritor se valeu de drogas locais, como a majoun, feita de maconha concentrada, para alcançar o nirvana literário. Foi sob o efeito dela, aliás, que Bowles conseguiu o tom certo para descrever a morte de Port. E, embora se trate de ficção, O Céu Que Nos Protege revelou-se profético. Assim como Kit, Jane passou o final de sua vida em clínicas psiquiátricas, depois de sofrer um derrame cerebral em 1957. Apesar do cuidado do marido, ela morreu em 1973, em um sanatório em Málaga, na Espanha.

Kit também criticava as atitudes pouco compreensivas de Port em situações corriqueiras. Nos momentos extremados, no entanto, ela dependia inteiramente dele - uma imagem fiel da relação entre Jane e Paul Bowles. Também a presença de Turner, a terceira vértice do triângulo amoroso do romance, parecia baseada na realidade, pois o casal Bowles gostava de levar amigos ilustres em seus passeios, como Truman Capote, Tennessee Williams e Gore Vidal.

Bowles escreveu outros romances, com sucesso mediano. Nunca deixou o Marrocos, embora soubesse, no fundo de seu ceticismo, que o oásis não passa de uma miragem para o homem.

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