O desejo no clássico de Lawrence

A francesa Pascale Ferran assina a mais bela adaptação de Lady Chatterley

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

D.H. - iniciais de David Herbert - Lawrence viveu apenas 44 anos, morrendo, em 1930, de tuberculose, que contraíra na juventude, numa época em que a doença era fatal, simplesmente por não existirem antibióticos. Embora curta, sua vida foi marcada pelo legado de uma obra notável. Seu romance mais popular, não o melhor, teve duas versões por ele próprio escritas - O Amante de Lady Chatterley e, mais tarde, Lady Chatterley e o Homem do Bosque. Foi na segunda que a diretora francesa Pascale Ferran se baseou para realizar Lady Chatterley, seu belo filme que estréia hoje. Veja trailer do filme Lady Chatterley A sexta traz um filme que investiga o universo masculino (O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, na página ao lado) e este outro que devassa a alma feminina para falar do desejo de uma mulher. Parece pouca coisa, mas não é. O cinema contou pelo menos duas vezes a história de Lady Chatterley, sempre tomando como referência a primeira versão do livro e buscando explorar a sua aura de escândalo. Lady Chatterley só foi liberado na Inglaterra em 1962 - e é por isso que muita gente diz que os anos 60, que mudaram tudo, só começaram com a liberação da Bovary de Lawrence.Ele próprio repetiu muitas vezes que suas duas versões de Lady Chatterley não são livros sobre o adultério, ou somente sobre o adultério, já que é impossível negar a evidência de que Constance, casada com esse homem que volta impotente da guerra, redescobre a sexualidade com o caseiro, com quem faz sexo (cinco vezes ao longo do filme). A beleza do filme de Pascale Ferran está na delicadeza com que a diretora explora a perspectiva feminina e também no tratamento que ela dá ao caseiro - Parkin, apesar da sua aparência viril, não é um brutamontes, mas um homem sensível que, numa cena, se entristece por se sentir ''''usado'''' pela mulher.Grandes críticos literários já disseram que Lawrence foi um dos autores que melhor souberam descrever a mitologia e a realidade da relação entre homens e mulheres. Inspirado na própria ligação com Frieda Weekley, com quem viveu uma relação de amor e ódio, ele criou personagens emblemáticas como Lady Chatterley e as mulheres apaixonadas (Gudrun e Ursula) do livro de mesmo nome. Frieda foi o modelo para Gudrun, a mulher que vive feliz dominada pelo macho, e Ursula, que domina o macho e o destrói. Lawrence via a mulher com essa duplicidade, que não é alheia a Lady Chatterley.Nos anos 50 e 80, os franceses Marc Allegret e Just Jaeckin filmaram a história com Danièle Darrieux e Sylvia Kristel. Pascale Ferran entende melhor o panteísmo lírico de Lawrence, sem chegar aos excessos de Ken Russell em Mulheres Apaixonadas. Seu filme privilegia o bosque como espaço da experimentação, entre o castelo e a cabana que colocam essa história de sexo (e amor) sob o signo da luta de classes.Serviço Lady Chatterley (Bél-Fr-Ing/2006, 168 min.) - Drama. Dir. de Pascale Ferran. 14 anos. Cotação: Ótimo

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