O desafio de saber contar a guerra

Limite tênue entre real e fictício, no novo filme de Brian de Palma, leva americanos a refletir sobre a representação do horror

Tomás Eloy Martínez, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2008 | 00h00

Redacted (''''Editado'''', numa tradução livre), o último filme de Brian de Palma, confundiu a maioria dos críticos americanos desde que estreou em Nova York em meados de novembro. Ele cria limites tão sutis entre o real e o fictício que os espectadores ficam desconcertados e se remexem incomodados nas poltronas.O episódio central do filme é o estupro de uma garota de 14 anos, Abeer Qasim Hamza, em Samarra, um povoado a 125 quilômetros ao norte de Bagdá. Os culpados são cinco soldados americanos que vigiam um posto de fronteira. Eles não só a estupram. Eles a matam junto com toda sua família.O fato é verdadeiro, mas é contado com uma linguagem de ficção. E a ficção, por sua vez, emprega as ferramentas usadas no mundo real: um diário de guerra escrito com uma câmera de vídeo, fragmentos de noticiários em língua árabe, páginas de internet, entrevistas reais com iraquianos ultrajados pelo Exército invasor, um documentário francês sobre o tenso aborrecimento da vida no posto de fronteira.Essa oscilação entre o imaginado e o verdadeiro deixa o público intranqüilo, inseguro sobre o terreno onde pisa. Ao sair do cinema, na escada para a rua, ouvem-se algumas discussões sobre Redacted. Dois casais se perguntam se a descrição do mal ajuda a conjurar o mal ou se essa exposição é um simples ato de vaidade do cineasta. Como se De Palma tivesse dito: ''''Eu tenho coragem diante do horror. Não me detenho.'''' Mas, ao afirmar isso, ele se esquece de que falar do horror, mesmo com a linguagem mais eloqüente, não se assemelha a estar dentro do horror, a ser uma de suas vítimas. O tema tem sido debatido há décadas sem que se encontre uma saída convincente.Ele já foi explorado por Susan Sontag em Diante da Dor dos Outros (no Brasil, pela Companhia das Letras, 2003). Ali, ela adverte que a representação visual do atroz é também uma forma de corrupção: reflete o corrupto e pode corromper quem o reflete.Essa última obra de Brian de Palma é uma reescritura de Pecados de Guerra (1989) no qual o diretor contava o estupro de outra adolescente durante a guerra do Vietnã. A história em ambos é a mesma e muitos episódios se repetem como em um espelho. O fato de Brian de Palma insistir no tema, arriscando-se a um desolador fracasso comercial - como comprova o escasso público de Redacted - indica que seus móveis vão além do estético, que está obedecendo a um impulso moral.Nos dois filmes, os soldados envolvidos no estupro não sabem por que estão onde estão, perto das investidas do Vietcongue em um caso e ao norte de Bagdá no outro. A guerra, para eles, é apenas ''''um trabalho que deve ser feito'''', um caminho no qual avançam às cegas supondo-se donos absolutos dos territórios ocupados. Eles sentem-se no direito de dispor dos corpos que têm ao seu alcance: velhos, recém-nascidos, meninos, mulheres, até mortos. Tudo que foi derrotado ou submetido lhes deve submissão. Eles se acreditam todo-poderosos, se sabem impunes. Estão convencidos de que a guerra os situa além de todo erro e de toda consciência.No final dos dois filmes, quando são julgados por tribunais militares por juízes do mesmo Exército que os impeliu a matar, eles supõem que se são sancionados também são atraiçoados. O fato de os castigarem equivale para eles a colocar-se do lado do inimigo.''''Estão fazendo o jogo do Vietcongue'''', dizem em um caso, E, no outro, como num eco: ''''Estão colaborando com os insurgentes iraquianos.'''' Em Pecados de Guerra, os estupradores eram quatro: um deles se convertia em cúmplice por covardia. O quinto se recusava e denunciava os demais. Em Redacted são dois os que estupram e três os que se recusam: um, porque permanece na barraca, outro porque quer documentar o que acontece; o último porque decide contar o que aconteceu.Os personagens são mais complexos que no filme de 1989. O que não sai do refúgio é um leitor infatigável dos romances de John O''''Hara. O outro, um hispânico que filma em vídeo tudo que vê, tem a esperança de que esse diário visual lhe abra as portas de uma escola de cinema documentário, talvez de Hollywood. O quinto procura explicar inutilmente que o que eles tramam é desalmado, bestial. Os dois restantes se atiram, cegos, no centro da tragédia.Em seu posto de vigilância eles observam e registram todos os dias a garota de 14 anos que se dirige à escola levando pela mão a irmã menor. Eles não suportam que ela vá e venha. As mulheres são seus objetos de caça. Elas lhes pertencem, devem aceitar a brutalidade de seus desejos.Eles não concebem os demais como seres humanos porque tampouco se pensam como pessoas. Elegem um alvo e a ele se atiram. Eles tratam apenas de aniquilar, saciar-se, seguros de que ninguém vai puni-los por seus instintos. Na guerra, tudo se degrada, tudo se despedaça, tudo deixa de ter sentido. Entra-se na guerra com um fim, um objetivo. E geralmente se sai com as mãos vazias, convertido em alguém que já não será o que foi.A violência impiedosa das guerras cria a atração hipnótica que se vislumbra às vezes nas fotos e nos filmes. Quando é real, quando golpeia na vida, essa violência é tão atroz que não consegue ser narrada. Narra-se apenas a sua fealdade, como em Redacted. Mas, o que os espectadores querem ver é a impossível beleza da violência, a degradação, a enfermidade da qual se crêem a salvo. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIKTomás Eloy Martínez é o autor de O Romance de Perón, Santa Evita e O Vôo da Rainha, que conquistou na Espanha o prêmio Alfaguara de novela, e O Cantor de Tangos. Também atua como diretor do programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Rutgers

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