O desafio de reinventar a emoção a cada novo espetáculo

Em O Amante do Girassol, Assis Brasil improvisa ao piano acompanhando poemas declamados pelo ator Daniel Lobo

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

Pouco antes de o bisavô morrer, Daniel Lobo escreveu um poema que falava da relação de profundo afeto entre os dois. Quando um bom amigo telefonou altas horas, deprimido, contando que pensava em se suicidar, ele também recorreu à escrita para dar vazão a seus sentimentos. Esses e outros textos estão em O Amante do Girassol, montagem nada convencional que o ator encena com o pianista João Carlos Assis Brasil.A estreia do "poema cênico musical" foi na sexta, no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Dirigida por Xarlô, a encenação tem poesias do CD homônimo lançado há quatro anos, em que atores recitam as criações de Lobo sonorizadas (gente que trabalhou com ele no teatro ou na TV, como Paulo Goulart, José Mayer, Diogo Vilela, Chico Anysio e Eva Wilma).A diferença é que, na peça, as músicas são compostas por Assis Brasil. À exceção de duas cantadas pelo ator, tudo que sai de seu piano é improvisado na hora, o que faz com que os espetáculos sejam sempre diferentes um do outro. Mais do que surpreender, a intenção é emocionar os espectadores."Eu me baseio muito na emoção dele; é uma troca forte. Não gosto de pensar antes no que vou tocar. A experiência proporciona essa liberdade de se dar ao luxo de criar só na hora", conta o músico, que já compôs trilhas e trabalhou em peças com Marília Pera, Marco Nanini e Camilla Amado. "O texto tem muita contundência e lirismo, e um ritmo muito musical."Lobo o convocou quando foi chamado a fazer uma apresentação de seus textos num auditório carioca, no fim de 2008. Ao chegar para ensaiar, deparou-se com um piano de cauda, e pensou: não posso ignorar isso. "Lembrei do João porque ele é homem de teatro. É artista generoso, que acompanha grandes nomes (Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Zizi Possi, entre outros, além do trabalho como músico erudito) e aceitou compartilhar um projeto com um cara que o procurou com as coisas que ele escreve..."Ele quis fugir da fórmula de recital. "Não tenho pretensão literária, até porque sou muito autocrítico. Enceno coisas a princípio pessoais, mas que tocam todo mundo", diz o ator, que mesclou também trechos de autores como Elisa Lucinda, Cora Coralina e Clarice Lispector. "Não sou um personagem; personifico sentimentos diversos, como a perda de um ente, o amor, a relação sexual, a amizade. É uma tentativa de nos entendermos enquanto espécie no mundo onde vivemos, em que as relações estão cada vez mais superficiais. O que a gente busca na peça é a luminosidade. Apesar de tudo, existe a luz."João cria em cima dos textos coloquiais de Lobo como, quando criança, inventava ao piano enquanto a mãe contava histórias; ele já se sentava ao piano com 3 anos; aos 7 começou a tocar profissionalmente.Para os versos de Gato Escaldado, que fala de uma noite à espera de um telefonema de mulher (Olha, confesso que até esperava/ É, de ti eu já esperava, sim/ Essa fuga de mim), criou um tango. A romântica O Amante do Girassol (Quero fazer versos para ti/ Versar a prosa que levamos/ As histórias que ainda não contamos) mereceu sons de ondas do mar.Lobo atua desde criança, foi Pedrinho no Sítio do Picapau Amarelo na Globo, nos anos 80. Adulto, trabalhou com a Armazém Cia. de Teatro. Ganhou prêmios de teatro e fez novelas. O Amante do Girassol tem ingressos populares (R$ 10) e vai até 31 de maio, de quinta a domingo, às 19 h. O ator quer levá-la a São Paulo no segundo semestre.

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