O desafio de instituir os os valores de um país

Interesse Nacional debate a inserção do Brasil no mundo

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Na apresentação do primeiro número da Interesse Nacional, os editores fazem a pergunta sobre o que significa falar hoje de interesse nacional e se esse significado tem validade para um país como o Brasil. Distribuída nas grandes livrarias, Interesse Nacional (Ateliê, 86 págs., R$ 25), cujos editores são Sergio Fausto e Rubens Antonio Barbosa, propõe respostas nos ensaios que vai publicar a cada trimestre. É um debate constante, iniciado pela edição de estréia.A noção de interesse nacional, embora seja genérica, pode ser apoiada em valores. Ela se funda em um juízo político e não técnico. Interessante ressaltar essa sutileza, enquanto atualmente se classifica a política de ideologia (apontando-se um sentido negativo) e a economia de técnica (revelando-se um sentido positivo). Por serem construção política, erguida por meio do debate público, os interesses do País passam pela democracia, um valor, e pela inserção internacional, um objetivo. Os editores dizem que essa noção pode parecer abstrata na aparência, mas ela é uma referência da qual o futuro brasileiro não deve abdicar.A revista propõe um debate em um ambiente de maior complexidade. No passado era mais fácil tomar posições, segundo escrevem os editores, além de as relações entre Brasil e outras nações serem menos intrincadas. O Estado tinha um peso maior, que se diluiu nos últimos anos, cedendo espaço ao setor privado nacional e internacional. As corporações multinacionais aumentaram seu cacife.A Interesse Nacional afirma adotar como linha editorial a renúncia à defesa de qualquer visão. Os ensaios não têm a intenção de promover convergência de opiniões. Tanto que os temas abordados apresentam perspectivas diferentes. É o caso dos artigos dos economistas Gustavo Franco, um dos idealizadores do Real e ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso, e Luiz Gonzaga Belluzzo, integrante da equipe do Cruzado e interlocutor do presidente Lula. Seus escritos, intitulados Inserção Externa e Desenvolvimento: O Consenso Envergonhado e Inserção Externa e Desenvolvimento: Mitos do Consenso Liberal, respectivamente, debatem o consenso econômico neoliberal, que reina absoluto desde o fim dos anos 1980. A intenção é saber se o neoliberalismo tem ou não bons fundamentos para amparar medidas econômicas e se pode levar o País rumo ao sólido desenvolvimento. Os seis artigos restantes debatem outros temas. A política externa brasileira na América do Sul, com ênfase nas relações com a Venezuela, é discutida pelo embaixador Rubens Barbosa e por Marco Aurélio Garcia, assessor especial de política externa do atual governo. As mudanças climáticas são o alvo da análise de Everton Vargas, embaixador que chefiou a delegação brasileira na última conferência da convenção sobre clima, em Bali, no fim do ano passado. A reforma do Poder Judiciário é tratada por Joaquim Falcão, professor de Direito da FGV-Rio. O jornalista Eugenio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, fala sobre a importância das televisões públicas na democracia. E o especialista Cláudio Moura Castro escreve sobre a "suposta" internacionalização do ensino superior no Brasil.

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