O Cristo que a tevê fisgou do teatro

Sai o DVD baseado em peça de Gabriel Villela com o grupo mineiro Galpão

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de abril de 2009 | 00h00

Durante oito anos, entre 1994 e 2002, o espetáculo A Rua da Amargura cumpriu uma vitoriosa carreira que começou no Rio, percorreu o Brasil e levou o Grupo Galpão, de Minas, sob a direção de Gabriel Villela, a países como Uruguai, Venezuela, Colômbia, Costa Rica, Canadá, Inglaterra, Espanha e Portugal. Em 2001, o espetáculo teatral virou especial da TV Globo que, rebatizado como A Paixão Segundo Ouro Preto, foi veiculado pela emissora na Sexta-Feira Santa daquele ano. Oito anos depois, justamente em outra Semana Santa, A Paixão é lançado em DVD, em Minas. A primeira exibição ocorre hoje em Belo Horizonte, no Cineclube Savassi, e a segunda amanhã, em Ouro Preto, no Teatro Municipal. Gabriel Villela e o Grupo Galpão estão voltando para casa.Há 15 anos, quando A Rua da Amargura estreou, alguns espectadores poderiam ver na Paixão de Cristo, segundo Villela, ecos do musical Godspell, a Esperança, que David Greene realizara mais de 20 anos antes, transformando Jesus num hippie que pregava entre saltimbancos, no Central Park de Nova York. Hoje, é mais provável que o telespectador veja A Paixão Segundo Ouro Preto como uma espécie de pré-Luiz Fernando Carvalho, pela maneira como o diretor se apropria da cultura popular, o circo-teatro que, com certeza, o marcou muito na infância interiorana. Era o que dois dos mais importantes críticos de teatro da época ressaltavam em suas apreciações sobre A Rua da Amargura.O lendário Sábato Malgaldi disse que o jovem Gabriel Villela - com 31 anos, em 1994 - conseguiu pegar um texto que ninguém levaria a sério e desencavar, por meio dele, o fundo místico que há no universo popular brasileiro. Macksen Luiz ressaltava como enganosa a declaração, feita pelo próprio Villela, de que seria um diretor de formação assumidamente espontânea, apesar do curso concluído na USP. Para o crítico, os espetáculos que o diretor montara revelavam extrema sensibilidade teatral demonstrada em concepções cênicas de rigor construtivo e projeção poética. Villela se alimentaria (alimenta?) do imaginário mineiro, da cultura popular (o circo-teatro) e do teatro processional (o ritual das cerimônias religiosas).A Paixão, na TV, não era o espetáculo teatral inteiro, mas uma versão que, partindo da concepção cênica de Gabriel Villela, tinha direção geral de Cininha de Paula e Rogério Gomes. Em sucessivas entrevistas, na época, o diretor contou que sua intenção, ao encenar o texto O Mártir do Calvário, de Eduardo Garrido, de 1902, era fazer um aprofundamento do melodrama, prosseguindo com sua versão de Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu, de Carlos Alberto Soffredini, e com o Romeu e Julieta, de Shakespeare. Esses três espetáculos não deixam de compor uma trilogia, embora a verdadeira trilogia, nunca concluída, de Villela, devesse ser formada por A Rua da Amargura, Romeu e Julieta e A Tempestade, também de Shakespeare. Esse último não foi montado porque o sucesso muito grande de Romeu e Julieta e Rua da Amargura levou o Grupo Galpão a itinerâncias muito longas, de mais de dez anos. O grupo não quis embarcar numa terceira aventura tão longa.O circo estava presente no palco (e na tela). Em entrevista ao Estado (27 de agosto de 1994), Villela declarava - "Abandonamos o picadeiro, mas não saímos debaixo da lona, pois o mais interessante na performance do Galpão é a linguagem circense. Temos desde o tradicional palhaço até personagens que parecem ter entrado na peça errada, usando figurinos diferentes." O personagem de Paulo José não existia na peça e surgiu como necessidade de dar unidade ao fracionamento da redução para 43 minutos. Villela permaneceu o tempo todo no set, preparando os atores para as tomadas. Godspell pode ser uma viagem do repórter - ele se lembra que uma influência muito mais forte foi Jesus de Montreal, de Denys Arcand, também calcado num grupo e num espetáculo de teatro, mas a metalinguagem não aparece no especial agora resgatado em DVD, à venda no site www.grupogalpao.com.br por R$ 30.

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