O corpo que fala em tonalidades dramáticas

Hotel Lautrèamont nasce de elenco coeso e integrado, que funde texto e movimento, nesta cia. que conquistou estabilidade

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2009 | 00h00

Um após outro, os espetáculos da Cia. Corpos Nômades vão deixando cada vez mais clara a construção da sua coreodramaturgrafia. O conceito, proposto por seu diretor, João Andreazzi, pode assustar quando lido pela primeira vez, mas diz exatamente do que trata: reúne coreografia e dramaturgia em uma escrita única.O melhor modo de entrar em contato com a coreodramaturgrafia é assistindo à sua mais recente produção, Hotel Lautrèamont - Os Bruscos Buracos do Silêncio, em cartaz até o fim do mês no Lugar, o espaço que a companhia montou há dois anos, ao ser contemplada pela Lei de Fomento à Dança. Com essa ação, deu um louvável exemplo de bom uso do dinheiro público. Criou um espaço para apresentações, aulas, workshops, ensaios e trocas artísticas. Nele, os recursos recebidos do orçamento da Prefeitura passaram a ser compartilhados de forma contínua e não somente por intermédio da criação de uma obra. Foi a partir da conquista da estabilidade que um espaço traz para qualquer companhia que a pesquisa da coreodramaturgrafia pode, de fato, se desenvolver. Não começou lá, pois, desde o início da sua carreira como coreógrafo, em 1989, João Andreazzi já fazia misturas. A dança nunca ocupou sozinha o seu interesse, atraído desde sempre também pelo teatro, pela música, pela literatura, pela poesia e, sobretudo, pelos usos da imagem. O repertório da Cia. Corpos Nômades quase conta uma história dos recursos tecnológicos, começando com slides, passando para as fitas VHS, para o super VHS, e por várias outras inovações até chegar às microcâmeras que hoje estão no seu palco.Hotel Lautrèamont - Os Bruscos Buracos do Silêncio nasce de um elenco coeso e integrado. Há uma sintonia entre os seis intérpretes criadores em torno do que cabe ao corpo fazer. Aldiane Dala Costa, João Pirahy, Mariana Mantovani, Ricardo Silva, Tiago Teles e o próprio João Andreazzi se organizam como samplers que vão processando informações de dança e de teatro ao longo da obra, mas ainda mantendo uma certa fronteira entre ambas, mesmo quando texto e movimento ocorrem simultaneamente. Isso se dá, provavelmente, por conta da convivência de dois entendimentos diferentes sobre o ato de representar. Quando se trata de dança, o corpo está desinflado e o movimento acontece sem impostação. Mas quando os corpos priorizam os personagens, as interpretações ganham tonalidades fortemente dramáticas. Os seis vão passando de uma informação para a outra - e elas são muitas, quase um jorro sonoro/visual/cinético/dramatúrgico - dentro de um roteiro bem costurado, fruto da parceria com Claudio Willer, poeta, ensaísta e tradutor de Lautrèamont, que se tornou o assessor poético e dramatúrgico dessa montagem. Do universo lautrèamontiano dos Contos de Maldoror a obra traz, sobretudo, a atmosfera surrealista e desencantada que se materializa nas metamorfoses homem-bicho, muito bem trabalhadas como poderosas metáforas da nossa desadaptação ao mundo.Neste hotel, tudo pode ser mutante. Um mesmo corpo pode ser jovem e velho. Pode-se ser sujeito e objeto, humano e animal. No ambiente criado pelo modo como ocupam o espaço, pela cenografia que o povoa, e pela música que se torna também personagem-mutante, o elenco vai produzindo corpos outros com os seus. Às vezes juntos, às vezes em solos ou duos, vão dando um passo importante na construção da coreodramaturgrafia. Trata-se de uma realização à altura de celebrar os 20 anos como coreógrafo profissional que João Andreazzi completa em 2009.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.