O corpo imune aos podres poderes

No ponto de partida da nova criação de Marta Soares, que discute saídas para as pressões diárias, estão textos de filosofia

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

Um novo trabalho de Marta Soares estréia hoje, às 19 h, na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista. Para quem tem alguma familiaridade com autores como Spinoza, Deleuze, Barthes e Agamben, o nome escolhido para o espetáculo se torna uma vitrine da sua questão central: Um Corpo Que Não Agüenta Mais.A consistente e coerente carreira da talentosa Marta Soares é um espelho da situação que os profissionais da dança enfrentam, por conta da ausência de uma efetiva política cultural para a área. Nos últimos dez anos, foi movida pelos prêmios conseguidos - em meio a toda a instabilidade tecida pela aleatoriedade que caracteriza esse tipo de mecanismo de distribuição de recursos. Com Les Poupées, nascido de uma Bolsa Rede Stagium, ganhou o Prêmio APCA 1997; criou Formless (1998) com o Prêmio Estímulo Flávio Rangel, da Funarte/MinC; com O Homem de Jasmim, que havia produzido graças à Bolsa Vitae e ao Prêmio Estímulo da Secretaria do Estado da Cultura, recebeu o Prêmio APCA 2000; nesse mesmo ano conquistou a prestigiosa Bolsa da Guggenheim Foundation; e, em 2004, mais um Prêmio APCA pela instalação coreográfica O Banho, montada para o Rumos Itaú Cultural. Para Um Corpo Que Não Agüenta Mais contou, no ano passado, com o Prêmio Klauss Vianna, da Funarte/Petrobrás, e com a Lei de Fomento à Dança do município de São Paulo.Desta vez, Marta, que não trabalhava em grupo desde 1998 (Formless), interrompe uma sucessão de solos para criar com Clara Gouvêa, Carolina Callegaro, Anderson Gouvêa e Manuel Fabrício. Em entrevista telefônica ao Estado, declarou que seu ponto de partida foi uma reflexão sobre o estar sozinha, o estar isolada. ''''Quando fiz os workshops que Lisa Nelson deu no Estúdio Nova Dança, surgiu a vontade de descobrir o que são os encontros. Comecei por Spinoza e passei para o texto Como Viver Juntos, de Barthes, onde encontrei os entendimentos do pária, do dejeto que é incorporado para ser excluído.''''De lá, passou para outro livro, o Homo Sacer, de Agamben, e para o Vida Capital, de Peter Pel Pélbart. ''''Foi assim que cheguei ao corpo que não agüenta mais de que fala David Lapoujade, e ao entendimento de que, para sobreviver, o corpo precisa tornar-se imperceptível, desaparecer, para conseguir ser o corpo resignado que não é o corpo do ''''a vida é assim mesmo'''', mas o corpo fraco que é, na verdade, forte, como nos fala Nietzsche.''''Marta destaca a importância do movimento ''''pobre'''', não sistematizado, proposto por Lisa Nelson. Os cinco criadores/intérpretes investigaram movimentos como o de ficar deitado, se sentir inútil, tornar-se idiota, fingir de morto, ou como caber em lugares estreitos, dentre outros. ''''Com a improvisação dos movimentos ''''pobres'''' no espaço, pudemos refletir também sobre os modos de sobreviver fazendo pesquisa face ao que já está sistematizado como produção em dança, uma área em que a cultura da pesquisa ainda não está muito consolidada.''''O trabalho com os 4 bailarinos começou com um retiro de uma semana de meditação e silêncio com um monge budista da Birmânia, no interior de São Paulo, em Vinhedo. ''''Estou muito satisfeita com o elenco, que aceitou a intensidade do exercício diário do estar junto e conseguiu trabalhar no escuro, sem resultados prontos imediatos.'''' Os ensaios duraram 5 horas, 5 dias por semanaO nono andar do Sesc Avenida Paulista foi totalmente revestido por carpetes. ''''Essa concepção faz parte das estratégias de isolamento e desaparecimento trazidas para o espaço'''', conta, salientando que também os figurinos ecoam os mesmos propósitos. ''''As roupas da Karla Girotto, também responsável pelo espaço cenográfico, acoplam os corpos, que viram figuras com membros subtraídos, replicados, rebatidos, que geram figuras deformadas, porque uma das estratégias desse corpo passivo é se deixar deformar.''''O estudo da deformação, especialmente através do trabalho com as bonecas dos anos 30 de Hans Bellmer (1902-1975), no qual fazia um protesto contra a ascensão do nazismo, acompanha Marta Soares desde o início de sua carreira e volta em Um Corpo Que Não Agüenta Mais, que tem desenho sonoro de Livio Tragtenberg e desenho de luz de André Boll.A temporada se encerra em 16 de dezembro, confirmando que a programação dessa unidade do Sesc colabora para a formação de platéia para a dança contemporânea quando não apresenta espetáculos somente em dois ou três dias.

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