O corpo como ferramenta ilusória

A companhia americana Pilobolus, que inspirou a criação do Momix, traz ao País um mix de coreografias de seu repertório

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

29 de maio de 2009 | 00h00

É notória a necessidade de se classificar e enquadrar qualquer ato, fato ou indício no mundo contemporâneo, seja em teses, na filosofia, em publicações ou discussões de botecos. A intenção, por mais honesta que seja, muitas vezes leva a equívocos, a conclusões apressadas e infundadas, sintetizando o que poderia render uma boa reflexão. A exigência de um título não dá trégua nem mesmo para aqueles que se aventuraram em áreas superficialmente ou jamais transitadas antes, como é o caso da Pilobolus Dance Theatre. Formada em 1971, a companhia americana já se acostumou com a adjetivação que ganha em cada palco que pisa, por onde quer que passe. O que não impede que os seus diretores tentem esclarecer o cerne do grupo quando se é concedida a oportunidade de uma entrevista."Focamos nosso interesse em combinar teatro, dança moderna e ginástica. Vale dizer que não somos atletas, inventamos movimentos que se assemelham aos da ginástica. Procuramos inventar o nosso próprio vocabulário. No entanto, uma vez que existe essa necessidade de classificação, podemos dizer que fazemos dança propriamente dita, já que utilizamos uma linguagem não-verbal em cima do palco", diz Michael Tracy, um dos três diretores artísticos, responsável pelo suporte criativo.Após cerca de quatro anos, quase consecutivos, de visitas ao Brasil, a Pilobolus traz desta vez um compilado de cinco peças desenhadas desde a sua fundação - o que Tracy acredita que deve agradar a gregos e troianos. "Acredito que muitos brasileiros que já nos conhecem desejam assistir a alguns espetáculos pertencentes ao nosso repertório, enquanto para os que ainda não nos conhecem tudo é novidade e desperta interesse." Pseudopodia, de 1973, é a coreografia mais antiga que consta no programa da turnê brasileira, que já passou pelo Rio e por Brasília, e seguirá para Salvador (dia 3), Curitiba (5) e Porto Alegre (6 e 7), logo após este fim de semana em São Paulo.Algumas mudanças na estrutura e na interpretação dos espetáculos foram inevitáveis com o decorrer do tempo. Pseudopodia, por exemplo, foi criada originalmente como solo e agora ganha vida tanto em corpos femininos, como em masculinos. "Cada um desses seis jovens e muito bem treinados bailarinos acrescenta um estilo muito particular às coreografias, além de exibirem formas de corpos completamente diferentes. Seria natural que, ao longo dos anos, as peças fossem sendo transformadas com a entrada de um novo integrante no elenco", afirma. "Já vi o mesmo espetáculo feito por diferentes bailarinos, que oscilaram entre o lírico e o teatral e o poético e esteticamente belo." O programa continua com Symbiosis (2001), Megawatt (2004), Rushes (2007) e Lanterna Mágica (2008).A companhia, que inspirou a criação do Momix e prepara três novos espetáculos, previstos para estrear em julho em Nova York, raramente faz uso de objetos cenográficos. O que no início foi uma limitação financeira ("éramos uma companhia muito pobre, experimentávamos em frente do espelho") acabou se tornando sua marca registrada. "Nos próprios corpos criamos ilusão", sentencia Tracy. ServiçoPilobolus Dance Theatre. Via Funchal (3.000 lug.). Rua Funchal, 65, Vila Olímpia, 2198-7718. Amanhã, 21 h; dom., 20 h. R$ 40/R$ 150

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