O compromisso com a vida simples

Clara Nunes, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho cantam repertório de sambas que falam de esperança e fibra espiritual

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

13 de janeiro de 2009 | 00h00

Clara, Martinho e Zeca se unem na fé. O seu compromisso é com a fibra espiritual e a vida simples. Essa relação com o mundo pode ser conferida em três DVDs - Clara Nunes; O Pequeno Burguês (Martinho da Vila); e Uma Prova de Amor (Zeca Pagodinho) - recém-lançados. Cada qual no seu estilo, eles cantam, sorridentes, letras que falam de esperança diante das adversidades. Como diz Martinho, "quem não dá sorte é azarado".Essa sorte seria dada pela fé no sobrenatural, presente nos videoclipes de Clara Nunes para o Fantástico (Rede Globo) nos anos 1970 e 1980. Apesar da precariedade técnica, as gravações mostram a beleza de Clara, vestida de branco, usando colares e com os pés descalços. A água é um dos elementos mais presentes. Filha de Ogum com Iansã, Clara Nunes pôde, com o auxílio da TV, intensificar a difusão da estética afro-brasileira. Naquele período, as emissoras procuraram alternativas à programação vigiada pelos militares.Os 21 vídeos foram ao ar entre 1974 e 1983. Nota-se a evolução de Clara, mais à vontade nos cenários, alguns com fundo em chroma-key (técnica de efeito visual). Ela canta em playback, no mais das vezes. Segundo Vagner Fernandes, autor de Clara Nunes: Guerreira da Utopia (Ediouro), a mineira não gostava de ser chamada de sambista, ela era intérprete de MPB. A seleção prova a diversidade - Conto de Areia (Romildo e Toninho), Coisa da Antiga (Wilson Moreira e Nei Lopes), Sagarana (Paulo César Pinheiro e João de Aquino), Feira de Mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha), Viola de Penedo (Luiz Bandeira), Morena de Angola (Chico Buarque), Ijexá (Edil Pacheco), entre outras.A religião de Martinho da Vila é o otimismo. Em dezembro de 2007, ele gravou O Pequeno Burguês no Teatro Fecap - uma antecipação aos 70 anos completados em fevereiro do ano passado. O show seria, assim, a sua "autobiografia musical". As primeiras obras - Depois Não Sei e Linha do Ão - são cantadas a capela. Depois entram em ação o cavaco (Wanderson Martins) e o pandeiro (Ovídio Moreira).A coisa ficou fácil, segundo Martinho, porque sua música parece uma conversa. Boa parte do repertório foi extraída do disco de estreia - Martinho da Vila (1969) -, seu trabalho mais vendido, onde estão Casa de Bamba, Pra Que Dinheiro, O Pequeno Burguês e Tom Maior. Acompanhado de um CD, o DVD traz a inédita Filosofia de Vida (com Marcelinho Moreira e Fred Camacho). Ela resume uma trajetória iniciada nos festivais nos anos 60, quando Martinho, ainda sargento, queria ser apenas compositor e não cantor. Não teve jeito. "Meu destino eu moldei/ Qualquer um pode moldar/ Deixo o mundo me rumar/ Para onde eu quero ir/ Dor passada não me dói/ E nem curto nostalgia/ Eu só quero o que preciso/ Pra viver meu dia a dia."O DVD contempla a atuação de Martinho no carnaval: Quatro Séculos de Modas e Costumes, Iaiá do Cais Dourado e Renascer das Cinzas são os sambas-enredo - com cadência de partido-alto - feitos para a Vila Isabel. Ele termina com Tom Maior, que era cantado no Teatro Opinião. "Vou ensiná-lo a viver/ Onde ninguém é de ninguém/ Vai ter que amar a liberdade/ Só vai cantar em tom maior/ Vai ter a felicidade de ver um Brasil melhor."Enquanto o Brasil não melhora, Zeca Pagodinho canta, bebe e come. Em Uma Prova de Amor, que traz o making of do CD de mesmo nome, Zeca repete a fórmula bem-sucedida do Acústico MTV 2 - Gafieira, com arranjos de Rildo Hora. As músicas foram escolhidas durante as cervejadas na sua casa em Xerém, no Rio. No DVD, a cerveja é um elemento onipresente.Zeca comenta as parcerias e o significado das obras, nas quais há "a preocupação de falar das coisas que a gente vive", como em Normas da Casa (Zé Roberto), Eta Povo Pra Lutar (Brasil, Badá, Magaça, Gilson Bernine) e Terreiro Em Acari (Alamir, Roberto Lopes e Nilo Penetra). Duas parcerias inéditas de Zeca com Arlindo Cruz aparecem - Sempre Atrapalhado e Se Eu Pedir Pra Você Cantar ("Meu samba tem poder de curar/ Meu samba é como um milagre de um santo"). Ogum (Claudemir e Marquinhos PQD) tem a participação de Jorge Ben Jor.Ao gravar essa música, Zeca usou uma camisa com a imagem e a oração de São Jorge. No fim do DVD, ele conta que, enquanto o disco era gravado, Regina Casé cantou Uma Prova de Amor para o pai, internado no hospital. Ele ficou muito alegre. Regina pediu uma fita com o samba. Era sexta, não havia ninguém no estúdio. Só na segunda. Mas, como ela previra, seria tarde demais.

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