O combate contra Hitler pelo rádio

Obra traz os 58 discursos que Thomas Mann fez para a BBC na luta antinazista

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

A voz soa grave, com respirações calculadas e com raiva contida, mas perceptível. Entre outubro de 1940 e novembro de 1945, o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955) participou da luta contra o nazismo por meio de boletins transmitidos pela rádio inglesa BBC a todo o território europeu. Eram textos escritos e lidos por ele em alemão, um total de 58 discursos. A tensão de sua voz pode ser detectada a partir de gravações disponíveis em sites de busca, como no YouTube - lá, é possível ouvir três dos textos lidos por Mann. Esses mesmos textos chegam finalmente às livrarias brasileiras com o volume Ouvintes Alemães! (tradução de Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick), a ser lançado nesta semana pela Jorge Zahar Editor. Ouça o áudio e leia a transcrição do discurso de novembro de 1941Mann escreveu e gravou os discursos na Califórnia, Estados Unidos, onde passou a viver a partir de 1938. Contrário ao nazismo desde antes da ascensão de Adolf Hitler ao poder, o escritor mudou-se com a família para a Suíça em 1933, ano em que Hitler se tornou chanceler. Três anos depois, perdeu a nacionalidade alemã e, antes que a situação se tornasse totalmente insuportável, buscou exílio na América.Lá, ele recebeu o convite da BBC e logo aceitou. "Eu achei que não podia perder essa oportunidade de fazer contato, embora frouxo e precário, com o povo alemão e também com os habitantes dos territórios subjugados, pelas costas do regime nazista que, assim que teve poder para isso, me privou de todos os meios de exercer influência intelectual na Alemanha", explicou Mann no prefácio da primeira edição do livro, lançada em setembro de 1942, contando então com 25 discursos.Os textos representam breves falas em que o escritor comentava os acontecimentos da 2ª Guerra e buscava influenciar os alemães. Para isso, utilizava uma tática inteligente, como se observa ao longo da leitura dos textos - apesar do ódio que alimentava contra Hitler e seu regime, Mann buscou moderar sua emoção para evitar que fosse vítima de seu próprio veneno. Afinal, ele sabia que qualquer adjetivo exacerbado que utilizasse poderia aumentar (e não minar) o fascínio que o Führer exercia sobre os adeptos dos nazistas.Assim, Mann concentra seu foco em Hitler, "o sujeito miserável que ainda se diz o Führer da Alemanha". Ao longo dos discursos, o escritor traçou um detalhado perfil do comandante alemão, sublinhando obviamente os seus defeitos. Ele ironiza, por exemplo, as qualidades de guerreiro de Hitler, ressaltadas por historiadores nacional-socialistas, que o viam como uma mistura de Napoleão, César, Frederico e Carlos Magno. Seu cérebro, na verdade, estava deteriorado, escreveu Mann, tripudiando ainda sobre o humor do líder, detalhe destacado pela imprensa (jornais americanos, por exemplo, diziam que Hitler fazia piadas com muita frequência), mas que o autor de A Montanha Mágica interpretava como sinais de paranoia.É curioso notar esse combate tão explícito, uma vez que Thomas Mann preferia a ficção como meio de luta contra o fascínio exercido pelo nazismo. Sua oposição aos nazistas foi definida em 1922, quando se declarou favorável à democracia - à época, representada pela frágil República de Weimar. Na verdade, Mann alimentava discussões sobre o que era ser alemão em um período bastante conturbado. A tetralogia José e Seus Irmãos, por exemplo, publicada entre 1933 e 1943, desenvolve os temas do exílio e da vida errante, e refere-se a certa proximidade entre os povos judeus e os alemães. Diferentemente de seu irmão Heinrich, Thomas Mann preferia trabalhar como artista a ser um militante. Isso explica a rara presença em sua produção de obras analíticas sobre o nazismo e o fascínio por Hitler na Alemanha e em outros países. Mário e o Mágico, uma longa novela de 1929, é um dos poucos exemplos dessa vertente, assim como um curtíssimo ensaio, Frère Hitler, de 1938. Mann expressa mais abertamente sua decepção com os europeus encantados com "um homem medíocre e que entrou na política por falta de aptidão para outra profissão qualquer".Foi o agravamento da guerra que trouxe ao autor a percepção da importância de ser mais enfático e direto, recursos que utiliza nos discursos de Ouvintes Alemães!. Os campos de concentração, por exemplo, ignorados por muitos de seus compatriotas, são temas de diversos pronunciamentos, nos quais o escritor os descreve como uma macabra combinação de ossos humanos, barris de cal, encanamentos de gás e crematórios.Com o avançar do conflito e a consequente derrocada alemã, Mann torna-se mais enfático, ressaltando a coragem daqueles que ousavam ouvir suas palavras, pois, diante da proibição da audição de transmissões feitas pelos aliados, o ato se revelava clandestino e perigoso. O escritor ironiza o próprio sucesso ao lembrar que até Hitler ouvia suas palavras, a julgar por um discurso feito pelo Führer no qual combatia críticas relacionadas a temas que haviam sido tratados por Mann.A irradiação era um processo complicado por causa dos escassos recursos técnicos da época. Tanto que os primeiros discursos do escritor foram lidos por um funcionário da BBC que se expressava em alemão. Convencido de que sua própria voz daria mais ênfase ao trabalho, Mann sugeriu um percurso complicado mas que se revelou eficaz: ele gravava nos estúdios da NBC em Los Angeles; dali, a gravação era enviada via aérea para Nova York e então transferida, por telefone, para outra gravação em Londres, onde finalmente era colocada no ar. Um esforço que se veria premiado. Ouvintes Alemães!Thomas MannJorge Zahar224 págs., R$ 39,90

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