O circo dos defeitos e virtudes dos homens

Vocês, os Vivos traz visão irônica do sueco Roy Andersson

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

O mínimo que se pode dizer de Vocês, os Vivos é que se trata de filme original. Insólito, nos convida ora ao riso, ora à reflexão melancólica - como parece ser a intenção do sueco Roy Andersson. Por exemplo, como se comportar diante da seguinte cena? Um jantar de luxo, servido com porcelana de mais de 200 anos. Um homem se posta à cabeceira da longa mesa e puxa a toalha, tentando aquela prestidigitação que consiste em deslizar o pano e deixar os pratos intactos, no mesmo lugar. O que acontece é da ordem da videocassetada. Mas o riso em seguida se extingue quando a mesa nua expõe duas suásticas gravadas no tampo. Veja trailer de Vocês, os Vivos Em entrevista, Andersson diz que é um pequeno lembrete sobre as relações bastante amigáveis entre suecos e nazistas, antes da guerra. Quando a louça se quebra, surge o passado a ser escondido. As outras gags passam por esse tema, são variações sobre ele - o processo civilizatório é um verniz, muito fininho; se você passar a unha com jeito, encontrará outra coisa por baixo. As situações se acumulam, sob a forma de quadros. Há o tocador de tuba que incomoda a vizinhança e nem se dá conta, o filho que pede dinheiro por telefone ao pai no meio de uma cerimônia, o casal que transa, o homem queixando-se de dívidas e maus investimentos... para delírio da mulher.Há um senso de humor muito nórdico nessa sequência de desacertos. Ao mesmo tempo, uma sutil observação da vida em sociedade, de suas pequenas hipocrisias e mazelas. O estilo é obviamente irônico. E, como se marca a ironia no cinema? De várias maneiras. Andersson pontua ações ridículas com música de Dixieland, tocada por uma banda. Desfoca o realismo das cenas, marcando seu artificialismo de representação. Faz tudo em estúdio, exatamente para acentuar a diferença em relação à realidade. A câmera é fixa, com os atores evoluindo no interior de um quadro imóvel, ostensivamente teatral. Andersson reforça o anti-ilusionismo do dispositivo fazendo com que, algumas vezes, o ator fale diretamente à câmera, isto é, ao espectador. Essa quebra da "quarta parede" tem efeitos interessantes, num leque da comicidade à reflexão.Ao que parece, Andersson não tem uma visão muito positiva dos seus semelhantes. Mesmo quando sofrem, os personagens parecem fazê-lo por mesquinharia. "São monstros de egoísmo", lamenta-se um psicanalista que não aguenta mais ouvir as queixas alheias. Por sorte, a visão de mundo do diretor não cai no cinismo tão comum quando não se acredita em nada nem em ninguém. Ele pode rir. E, rindo, junta-se aos seus semelhantes, com seus muitos defeitos e algumas poucas virtudes. ServiçoVocês, os Vivos (Du Le-vande, Suécia-Alemanha-França/2007, 94 min.) - Drama. Dir. Roy Andersson. 18 anos. Cotação: Bom

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