O chef herói em São Paulo

Um dos fenômenos culturais surpreendentes das últimas décadas é a ascensão dos cozinheiros ao status de astros ou, como se diz em inglês, ''''superastros''''. Sei que, antes, havia chefs de cozinha célebres em círculos restritos de gourmets e profissionais. Um ou outro ganhava fama e dinheiro, imagino, com a publicação de livros de receitas ou o sucesso de um restaurante caro em Paris. Mas não eram conhecidos do público, muito menos do grande público mundial. Hoje, até Samuel, meu filho caçula, de 4 anos, tem um cozinheiro predileto, juro, pode perguntar a ele. É o ''''minichef'''', o ratinho bonitinho do filme recente da Disney, Ratatouille. Já completou o álbum de figurinhas e tudo. No meu tempo, não havia isso. Os meninos de 4 anos, e mesmo os mais velhos, evitavam preparar refeições mais elaboradas e tampouco trocavam figurinhas sobre culinária. O meu cozinheiro predileto, fora o Pasquale, do restaurante homônimo no Jardim Bandeira, é Anthony Bourdain, como já tive ocasião de mencionar. Nunca experimentei nenhum prato seu. Gosto do que escreve sobre o assunto. O seu livro de estréia, o bestseller Cozinha Confidencial, é uma pequena obra-prima. Em Busca do Prato Perfeito, o segundo, é quase tão bom quanto. A escrita do Bourdain mostra a influência do saudoso papa do jornalismo gonzo, Hunter S. Thompson (colunista da primeira fase da revista Rolling Stone, autor de Medo e Delírio em Las Vegas). Mas hoje Bourdain talvez seja menos conhecido como escritor e mais por seu programa de TV a cabo, No Reservations, ou Sem Reservas, apresentado em São Paulo no canal Travel e Leisure (TVA e Sky). Nele, o cozinheiro oficial do Les Halles, de Nova York, viaja o mundo à procura de iguarias da baixa e alta culinária, sempre com um enfoque cultural. Come de macarrão nos quiosques de rua do Vietnã a omeletes de avestruz na Namíbia, com paradas para cumprimentar seus amigos, chefs badalados de restaurantes chiques mundo afora, que ninguém é de ferro. Quando eu soube, através do jornal, que passaria na TV um programa de Bourdain dedicado à culinária de São Paulo, mal consegui me conter, tamanha a excitação. Mas na data prevista estava fora do País. Perdi-o, para tristeza minha. Por sorte, minha amiga Silvana é fã do Bourdain, como eu, e tem ainda um daqueles aparelhos modernos que reproduzem programas de TV a cabo. Semana passada ela me convidou, no horário da novela (que gravava, não se preocupe), para assistir ao episódio de Sem Reservas sobre São Paulo na casa dela. É ainda melhor e mais lírico do que eu esperava. Bourdain procura - e acha - a poesia local. Esta deve ser sua terceira ou quarta visita a São Paulo, mas ele já percebeu características da cidade que levei décadas para esboçar. Diz, logo no início, que São Paulo é uma metrópole de amigos. É preciso tê-los para gostar daqui. Pronto, é isso. Amigos que se reúnem em refeições festivas, regadas a muito álcool, pelo menos no caso do nosso chef, que é chegado a uma caipirinha. Bourdain come testículos de boi e de galo na Lapa (''''não sabia que o galo tinha testículos''''), participa de um churrasco masculino com futebol soçaite, regado a cerveja e vodca; cura a ressaca com pão na chapa e um pingado na padaria; degusta um sanduíche de filé miau na quadra da Rosas de Ouro, com minhas amigas Renata e Joana, da Companhia das Letras (que não me contaram isso!) Escapa, ainda, para a Praia de Camburi onde, estimulado pelo álcool, sol e companhia, elabora teorias sobre a beleza da vida e a culinária da era pré-refrigeração. Passa uma longa tarde em um reduto secreto, saboreando o que parece ser uma feijoada sem igual. Ganha, do badalado sushiman Jun Sakamoto, um tour pela Liberdade com direito a degustação de comida de rua (queijo coalho e frango de espeto). No lance final, inspirado pelo mestre Hunter, pede para grafitar seu slogan pessoal - Cook free or die - numa das paredes de concreto da cidade. É o melhor programa de TV que já vi sobre São Paulo. Devia ser distribuído pela Embratur. Espero que seja lançado em DVD ou, no mínimo, reprisado. Tive de conter as lágrimas em diversos momentos, para não constranger a Silvana. ''''Aqui encontro o tipo de gente de que gosto'''', diz Bourdain, a certa altura. Sempre achei o mesmo.

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

01 Outubro 2007 | 00h00

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