O caso do dinheiro lavado

Vera tem uma empregada há muitos anos. Daquelas que se tornam pessoa da família. Mulher de confiança, pau para toda obra, cozinha, lava, passa, faz faxina, cuida dos filhos, educa, viu todos os filhos crescerem. Essa mulher costuma assistir a telejornais enquanto prepara o jantar. Uma vez ficou impressionada com o noticiário policial, um daqueles em que a mesma cena é repetida exaustivamente. Falava de um bando de empresários e grã-finos que lavavam dinheiro. O patrão, Antoninho, sujeito bem situado, tinha acabado de entrar na cozinha, também teve interesse nas informações. A empregada viu aquela gente bem vestida e algemada.- O que fizeram? Gente com cara boa, chique.- Bandidos, disse o dono da casa.- De roubar gente, assaltar banco?- Não. Gente fina é pior. Esses aí faziam lavagem de dinheiro.- O que é isso?- É um crime. Chama-se crime do colarinho-branco.- Que história é essa de lavar dinheiro?- Pegam o dinheiro sujo das pessoas, fazem duas ou três operações e o dinheiro reaparece limpo numa conta. Em geral fora do país.- Dinheiro sujo?- Pode ser dinheiro sonegado. Sabe o que é sonegado, não? Quem não paga imposto. Ou dinheiro que se ganhou ilicitamente.- Ilícita...o quê?- Mensalão. Sabe o que é mensalão?- Coisa de deputado ladrão?- É mais ou menos isso.- Mas eles não são tudo ladrão?- Mais ou menos isso. Todo dinheiro que a gente ganha e deposita no banco tem de declarar que é honesto, vem do trabalho ou de algum trabalho.- Declara para quem?- Para a Receita Federal.- Receita Federal? É um convênio médico? Eles receitam o que para a gente?- Não, Receita Federal é um departamento do governo que controla o que a gente ganha.- Como controla?- Difícil explicar. A gente declara para eles o que a gente ganha.- Nunca declarei nada.- Você é isenta.Ela se assustou, ofendida.- É doença ou um xingamento?Antoninho sentiu-se tentado a dizer que, para o presidente da República, os isentos incomodavam, eram mais do que uma doença, eram insulto, uma ofensa, todo mundo deveria pagar tudo, e mais, muito mais. Porém, não quis complicar.- Saiba só isso. Que lavagem de dinheiro é crime, é sacanagem contra o governo, contra nós que damos duro na vida. É crime!Ficou por isso naquela hora, foram todos comer uma farofinha já que a mãe da Vera tinha mandado a boa farinha de mandioca do interior, feita em casa pela outra filha, Liliana, moça muito prendada. Como são, aliás, todas as filhas da família. Uma delas lê um livro por dia. Um por dia! O pai acha que um dia vai trabalhar em editora. Dia desses, a empregada de Vera foi à padaria comprar o lanche de domingo, pão, queijo branco, peito de peru light, etc. Entregou a nota de 50 ao caixa, este olhou a nota, olhou para Vera, devolveu o dinheiro.- Não posso aceitar. É dinheiro lavado.- Como dinheiro lavado? O que o senhor pensa? Sou honesta.- Honesta, não duvido. Mas esse é dinheiro lavado, não vou aceitar.- Não fui eu que lavei.- Vai ver, foi seu patrão.- Pensa o quê? É uma família boa, direita, religiosa, trabalhadora.- Mas lavou o dinheiro.A empregada apanhou a nota, furiosa. ''''Nuca mais volto a esta padaria, nunca mais!'''' Chegou em casa, Vera e o marido estava vendo um filme na tevê, a empregada despachou:- Nunca mais volto naquela padaria! E podem me dar as contas! Acabou! Nunca pensei que vocês fossem assim! Qualquer dia acabo na cadeia.- O que houve, mulher de Deus?- Mulher de Deus que trabalha para gente do dia. Vocês lavam dinheiro. E quem passa o carão sou eu. O padeiro me disse. Olha aqui. Dinheiro lavado. Vocês acusando os outros e são iguais. Lavam dinheiro igual os colarinho-branco. Colarinho sujo, isso sim!Antoninho apanhou a nota e começou a rir, mostrou à Vera que caiu na gargalhada, a empregada ficou pasma.- Criminosos e ainda riem de mim.- Você é que lavou esse dinheiro.- Eu?- Claro. Estava no bolso da calça, você colocou a calça na máquina de lavar. O padeiro tem razão, é dinheiro lavado. Se tem criminoso aqui é você...

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