''''O carioca sabe mostrar a alma''''

Polêmico, Terry Richardson se joga no Rio e apresenta sua visão pessoal da Cidade Maravilhosa

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Soltinho no Rio, o fotógrafo nova-iorquinoTerry Richardson se jogou em bailes funk, no Copacabana Palace, no Piscinão de Ramos, num presídio feminino e em alguns inferninhos mal freqüentados - além de beijar Dercy Gonçalves, o que pode ser encarado como uma espécie de batismo. Se divertiu aos baldes, confessa nesta entrevista ao Estado, falando de Hong Kong. Ele fala aqui sobre as aventuras no Rio, auto-retratos (onde, não raro, aparece nu ao lado de seus modelos, famosos ou anônimos), o estilo que o consagrou e, imprevisível, afirma que a pornografia pode ser arte mas, por si só, é triste.Quais as semelhanças que um fotógrafo como você vê entre cidades como Rio de Janeiro e Hong Kong?Acho que as cidades têm semelhanças por serem perto da água, são cidades que eu queria visitar, que eu nunca tinha ido e cidades longe de onde eu estou e que eu queria explorar, pela primeira vez.Como escolheu quem seria fotografado? As celebridades brasileiras impuseram condições para posar para você?Eu fiz algumas sugestões e o Marcelo (Sebá, diretor de Marketing da Diesel do Brasil) procurou pessoas legais que quisessem posar. Tinha todo tipo de pessoa: jovens e velhos, ricos e pobres, felizes e tristes.Fora a liberdade ilimitada, obviamente, qual é a grande diferença entre o trabalho pessoal que você faz e os ensaios que executa sob encomenda, para revistas e campanhas publicitárias, por exemplo?O meu trabalho pessoal é feito para mim, posso fotografar sem moda e sem layout definido e tenho mais liberdade para trabalhar. O problema da fotografia comercial é que o conceito é fechado, sempre rolam imprevistos e no fim do dia você entrega o que foi pedido, o que eles esperam.Como tirar ainda mais sensualidade de uma cidade que tem uma imagem tão sexualizada quanto o Rio? Sob esse ponto de vista, acha que é mais fácil fotografar dentro do seu estilo na cidade?É mais fácil, mas não é uma questão de sensualidade. No Rio, as pessoas são mais passionais. Elas mostram muito mais a alma, a vida e a energia, independentemente da situação precária em que vivem. Os cariocas são mais positivos e alegres do as pessoas de outras cidades. Em Hong Kong, por exemplo, ainda que transmitam energia, as pessoas são mais reservadas.No começo, você sofreu muito para estabelecer seu estilo polêmico? Você teve de fazer fotos caretas para sobreviver?Sim. Mas, no começo da minha carreira, as fotos polêmicas que eu fazia ficavam melhores do que as fotos que pediam para eu tirar. O importante para as pessoas que estão no começo da carreira é ter seu próprio estilo, fazer o que fazem do seu jeito e, assim, tentar conquistar as pessoas com seu próprio estilo.Em geral, os fotógrafos não gostam de posar para fotos. Por que você faz questão de aparecer, de fazer auto-retratos?Aparecer nas fotos, para mim, é como encarar um personagem, uma marca. Sobre a nudez, se eu peço para alguém posar nu, eu tenho de posar também. Quando as pessoas me viam posar nu, davam risada, então, eu pretendo passar certo humor, fazendo as pessoas darem risada. Gosto de trazer alegria para as pessoas.Vendo sua expressão nas fotos, posso dizer que você se divertiu muito na passagem pelo Rio. Qual foi a situação mais divertida que vivenciou?Tive muitos momentos bacanas no Rio. Gostei muito de ir ao baile funk e também de uma certa balada que tinha muitos homens - foi uma experiência bizarra e divertida.Como convence as pessoas a posarem para você, tem um truque especial? Teve dificuldades no Rio?Não. Hoje as pessoas já reconhecem o meu trabalho e até têm uma expectativa pela nudez. Elas sabem que a nudez faz parte do meu trabalho, e eu exponho essa idéia com naturalidade. Todos aceitam muito bem e raramente alguém fica nervoso.Você usa a pornografia apenas como um elemento artístico ou é consumidor dela também?Para mim, fotografia é arte e a nudez faz parte do trabalho. Eu não consumo pornografia porque ela por si só é triste. Mas ela pode ser usada tanto como arte quanto como entretenimento, tudo é válido.Mas onde a arte termina e a pornografia começa?Um material pode ser pornográfico sem ser sensual. Você pode chamar de pornográfico o que eu faço, mas eu gosto de me envolver com a arte. Eu não trabalho para revistas pornôs e prefiro ter contratos comerciais que se interessam por isso. Eu apenas faço o que faço, sem pensar muito, não gosto de usar rótulos.Você é chamado de ''''o marquês de Sade da Fotografia''''. Gosta da comparação?Sim, acho fantástico!Ouvi dizer que você prefere câmeras pequenas e simples. Por que não se deixou seduzir pelo aparato tecnológico dos estúdios de hoje em dia?O que eu preciso é de um equipamento fácil de usar, de um flash e de uma câmera que seja à prova de idiotas. Eu não quero ficar mexendo na parte técnica de foco, iluminação, etc. Eu só quero tirar fotos rápidas.

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